Menino de 11 anos em cadeira de rodas encontra paixão no xaxado: ‘Atrapalha não’

Menino em cadeira de rodas dança dança xaxado e diz que encontrou no ritmo, uma paixão Aos 11 anos, João Miguel encontrou no xaxado uma forma de expressão e pertencimento. O menino, que usa cadeira de rodas, integra um grupo de dança em Sapé, na Zona da Mata da Paraíba, e tem chamado a atenção nas festas de São João. João nasceu com Artrogripose Múltipla Congênita (AMC), uma condição rara caracterizada por contraturas nas articulações e fraqueza muscular. A deficiência, no entanto, não o impede de participar das apresentações e dividir o palco com os colegas. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp Neste ano, o menino passou a integrar o Grupo de Xaxado Semeando, dirigido pelo coreógrafo Luiz Paulo, após já ter participado de atividades de dança em uma creche. Foi justamente o contato com as aulas ministradas por Luiz Paulo na instituição que abriu as portas para sua entrada no grupo. A paixão pela cultura popular parece correr nas veias da família. A mãe, Jaqueline Almeida, é quadrilheira há mais de 15 anos e conta que sempre levou o filho para apresentações, ensaios e viagens ligadas ao universo junino. “Eu dancei até grávida de João Miguel. Sempre levei ele comigo. Ele foi crescendo vendo tudo isso e, naturalmente, acabou se apaixonando também”, relatou. João Miguel com figurino do Grupo de Xaxado Arquivo Pessoal/Jaqueline Almeida Segundo ela, o entusiasmo do filho com o novo grupo ficou evidente desde os primeiros ensaios. “Todo dia ele chegava em casa falando do xaxado. Ficava ensaiando os passos sozinho. Era uma alegria muito grande”, contou. A mãe também destaca que, embora o diagnóstico tenha sido difícil de receber quando João nasceu, o filho a ensinou uma nova forma de enxergar a vida. “Eu aprendo com ele todos os dias. Independente das dificuldades, ele está sempre sorrindo. Ele não se deixa definir pela deficiência. O que mais encanta é a pessoa que ele é”, afirmou. Alegria que contagia Questionado sobre sua experiência no grupo, João Miguel resume tudo em poucas palavras. “Eu me sinto alegre, feliz. Me divirto muito. É muito bom”, disse. O menino afirma que pretende continuar dançando pelos próximos anos e revela que sua coreografia favorita é a "dança do Carcará". Além disso, garante que sua condição não interfere na realização das atividades que gosta. “Atrapalha não”, respondeu com simplicidade. Inclusão construída na prática Grupo de xaxado semeando Arquivo Pessoal/Jaqueline Almeida Para o diretor de espetáculos e coreógrafo do grupo, Luiz Paulo, a inclusão acontece quando as potencialidades dos alunos são colocadas em primeiro plano. Graduado em Dança pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ele explica que sua formação acadêmica trouxe experiências voltadas ao trabalho com pessoas com deficiência. Uma das referências foi a professora Carolina Teixeira, pesquisadora da área. “Um dos ensinamentos que levo para a vida é investigar as mobilidades que cada aluno possui e transformar isso em potencialidade”, explicou. A partir dessa perspectiva, as coreografias passaram a considerar os movimentos que João Miguel consegue executar, fazendo com que os demais integrantes também experimentem esses gestos. “Pensei a coreografia voltada para ele e fiz com que os outros alunos realizassem movimentos semelhantes. É uma forma de se colocar no lugar do outro. Foi aí que percebi toda a potência que João tem, tanto na cadeira quanto fora dela”, destacou. Segundo o professor, as demais crianças demonstram cuidado, atenção e companheirismo durante os ensaios. “Ele é muito ágil, alegre e topa qualquer desafio dentro das suas possibilidades. Os colegas ajudam bastante, mas ele também faz muitas coisas sozinho com a ajuda da cadeira elétrica”, contou. Grupo de xaxado durante apresentação Reprodução/Instagram Tradição que atravessa gerações O Grupo de Xaxado Semeando trabalha a valorização da cultura nordestina entre crianças e adolescentes. Para Luiz Paulo, ver jovens se apropriando da tradição representa a continuidade de um patrimônio cultural que atravessa gerações. O xaxado, dança surgida no início da década de 1920 no sertão de Pernambuco e popularizada pelos cangaceiros liderados por Lampião, faz parte da identidade cultural do Nordeste e segue vivo graças ao trabalho de grupos que preservam essa manifestação. “Eu chamo isso de energia entre gerações. Muitos dos primeiros integrantes do grupo hoje têm filhos participando das apresentações. É uma forma de fortalecer os vínculos familiares, a cultura e o sentimento de pertencimento”, afirmou. Além dos aspectos artísticos, o grupo também promove reflexões sobre história, cidadania e identidade nordestina. Mais do que uma apresentação João Miguel durante apresentação de xaxado Reprodução/Instagram Enquanto os festejos juninos ocupam ruas, praças e arraiais, João Miguel segue ensaiando seus passos com entusiasmo. Entre um movimento e outro, ele mostra que a dança pode ser também um espaço de acolhimento, inclusão e descoberta. No palco, o menino não representa apenas uma história de superação. Representa, sobretudo, a alegria de uma criança que encontrou no xaxado um lugar para ser exatamente quem é: feliz, participativo e apaixonado pela cultura nordestina. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba
