{"id":9345,"date":"2023-01-27T12:04:36","date_gmt":"2023-01-27T15:04:36","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2023\/01\/27\/profetas-da-chuva-agricultores-leem-sinais-da-natureza-para-definir-o-momento-certo-do-plantio.ghtml"},"modified":"2023-01-27T12:04:36","modified_gmt":"2023-01-27T15:04:36","slug":"profetas-da-chuva-agricultores-leem-sinais-da-natureza-para-definir-o-momento-certo-do-plantio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2023\/01\/27\/profetas-da-chuva-agricultores-leem-sinais-da-natureza-para-definir-o-momento-certo-do-plantio\/","title":{"rendered":"Profetas da chuva: agricultores leem sinais da natureza para definir o momento certo do plantio"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/sjEpi6IrkyZsLwqq4CwLMVQiW9E=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2023\/T\/i\/UHFhWgSvq79u3BA414Tw\/sertao-da-paraiba.jpg\" \/><br \/>   Saber se vai chover ou n\u00e3o \u00e9 fundamental para o sucesso da colheita, ensinam os profetas. Tradi\u00e7\u00e3o popular segue de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o em ro\u00e7ados e assentamentos paraibanos. Profetas da chuva: uma intr\u00ednseca rela\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo com a natureza\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nUma tradi\u00e7\u00e3o de mais de 200 anos, que passa de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o e que ainda hoje sobrevive no Sert\u00e3o da Para\u00edba e em outras regi\u00f5es \u00e1ridas do Nordeste brasileiro, principalmente nos ro\u00e7ados, nos assentamentos e entre pequenos produtores da agricultura familiar. Um conhecimento emp\u00edrico, nascido da observa\u00e7\u00e3o de sinais da natureza. Tudo para responder a perguntas que poder\u00e3o definir o sucesso da pr\u00f3xima colheita. Estes s\u00e3o os profetas da chuva, pequenos agricultores e apicultores que, sem nenhum outro tipo de tecnologia afora suas pr\u00f3prias experi\u00eancias, conseguem antever com relativa seguran\u00e7a como vai ser o pr\u00f3ximo inverno.\nS\u00e3o t\u00e9cnicas diversas. Que precisam ser realizadas em tempos distintos. Algumas observa\u00e7\u00f5es come\u00e7am ainda em junho ou julho do ano anterior, para um inverno que vai de janeiro a junho de cada ano. N\u00e3o h\u00e1 descanso, portanto. Mal termina um, j\u00e1 se come\u00e7a a analisar e a estudar o per\u00edodo de colheita do ano seguinte. \nAdemais, cada agricultor se especializa em formas espec\u00edficas de analisar a natureza. E, eles garantem, n\u00e3o se trata de sorte, de crendice, de qualquer tipo de simpatia.\n\u201c\u00c9 um cuidadoso di\u00e1logo com a natureza\u201d, ensina S\u00edlvia Maria de Lima, de 49 anos, agricultora e apicultora de Catol\u00e9 do Rocha, Sert\u00e3o da Para\u00edba.\nMoradora do assentamento Frei Dimas, zona rural do munic\u00edpio, ela explica que aprendeu as t\u00e9cnicas com o seu pai, tamb\u00e9m agricultor e apicultor, e esse j\u00e1 havia adquirido o conhecimento de gera\u00e7\u00f5es anteriores. Ela destaca que tudo se resume a uma intr\u00ednseca rela\u00e7\u00e3o entre natureza e pessoas do campo.\n\u201cA natureza \u00e9 muita s\u00e1bia. Se voc\u00ea souber observ\u00e1-la, ela vai lhe orientar\u201d, prossegue ela.\nS\u00edlvia Maria de Lima, agricultora e profeta da chuva\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nS\u00edlvia ensina que a chave da quest\u00e3o \u00e9 descobrir se o ano que se aproxima vai ser de inverno ruim ou bom, e se as chuvas v\u00e3o surgir precocemente ou apenas tardiamente. A partir dessas respostas, no entanto, uma s\u00e9rie de decis\u00f5es precisar\u00e3o ser tomadas.\nEm Catol\u00e9 do Rocha, por exemplo, a regi\u00e3o \u00e9 de muitas serras, e a quantidade de chuva vai interferir no local e no tempo do plantio. \u201cSe \u00e9 ano de muita chuva, tem que plantar na terra de serra, para fugir dos alagamentos. Se \u00e9 ano de pouca chuva, tem que plantar na terra de baixo, para aproveitar a \u00e1gua que escoa\u201d, prossegue S\u00edlvia.\nOutro ponto \u00e9 que, num ano de inverno fraco, o plantio tem que acontecer imediatamente, nos primeiros sinais de chuva. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para esperar muito. N\u00e3o pode desperdi\u00e7ar chuva\u201d, explica. Mas, em anos de inverno forte, a din\u00e2mica muda. \u201cQuando o inverno \u00e9 bom, tem mais tempo de plantio. Com sorte, a gente consegue at\u00e9 duas colheitas num mesmo ano\u201d.\nSobre seus acertos recentes, S\u00edlvia orgulha-se: \u201cNos \u00faltimos cinco anos, eu n\u00e3o errei nenhuma\u201d. \nA agricultora e apicultora, entretanto, faz uma alerta: 2023 n\u00e3o vai ser um bom ano para os moradores de Catol\u00e9 do Rocha. \u201cEste ano vai ser de apenas uma colheita. E nem todo mundo vai ter acesso a ela\u201d, lamenta, destacando em seguida que as observa\u00e7\u00f5es da natureza t\u00eam curta abrang\u00eancia e dizem respeito a apenas aquela localidade espec\u00edfica e n\u00e3o ao Sert\u00e3o como um todo.\nO c\u00e9u no Sert\u00e3o da Para\u00edba: expectativa \u00e9 sobre chuvas entre janeiro e junho\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nNo caso de S\u00edlvia, ela se concentra em cinco sinais em especial. Um deles \u00e9 a flora\u00e7\u00e3o do pau d'arco, um tipo de ip\u00ea da regi\u00e3o que come\u00e7a a dar flores entre julho e agosto. Se as plantas florarem todas por igual, \u00e9 sinal de bom inverno, mas se isso acontecer de forma irregular o inverno n\u00e3o vai ser bom. \n\u201cSe n\u00e3o flora, n\u00e3o chove. Tem que plantar r\u00e1pido. As pessoas t\u00eam que ficar espertas. Se demorar muito a plantar, n\u00e3o vai lucrar\u201d, resume.\nOutros dois exemplos, que segundo S\u00edlvia demonstram a sintonia da natureza com seu entorno, est\u00e3o no coco do catol\u00e9 e na resina dos angicos, uma \u00e1rvore nativa da regi\u00e3o. O coco \u00e9 uma rica fonte de alimentos e que pode ser guardado por longos per\u00edodos. J\u00e1 a resina do angico \u00e9 comest\u00edvel e serve de alimento para macacos que vivem no Sert\u00e3o. Se ambos surgirem em abund\u00e2ncia nos meses anteriores ao per\u00edodo de chuva, \u00e9 sinal de inverno ruim.\n\u201c\u00c9 a natureza lhe dando subst\u00e2ncias para voc\u00ea aguentar a seca\u201d, resume.\nProfetas do Sert\u00e3o da Para\u00edba ensinam que a natureza d\u00e1 as dicas sobre as chuvas e a quest\u00e3o \u00e9 saber dialogar com ela\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nNavegando com a natureza\nBas\u00edlio Pordeus Neto tem 61 anos e mora no S\u00edtio Curralinho, zona rural de Sousa. H\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, j\u00e1 observa os fen\u00f4menos da natureza, ap\u00f3s ser ensinado pela m\u00e3e quando tinha apenas dez anos. Ele resume de forma po\u00e9tica a sua ocupa\u00e7\u00e3o: \u201cEu me criei na ro\u00e7a, agricultor desde nascido\u201d.\nEntre outros tipos de observa\u00e7\u00f5es, ele diz que gosta de analisar os astros, garantindo que esses t\u00eam muito a ensinar tamb\u00e9m sobre o tempo. H\u00e1 toda uma l\u00f3gica envolvida, que faz bastante sentido para quem tem a experi\u00eancia dele. Ao tentar explicar como tudo funciona, no entanto, nem sempre o ensinamento \u00e9 de f\u00e1cil entendimento.\nBas\u00edlio Pordeus est\u00e1 esperan\u00e7oso com o inverno de 2023 em Sousa: \"os sinais est\u00e3o a\u00ed\"\nBas\u00edlio Pordeus\/Arquivo Pessoal\nAinda assim, ele repassa um dado mais f\u00e1cil de ser captado. \u201cQuando o m\u00eas de janeiro entra na lua nova ou na lua crescente, \u00e9 um bom sinal. \u00c9 sinal de chuva e boa colheita\u201d, garante.\nOutra observa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de alguns planetas. Ele ensina: \u201cDe Sousa, o planeta V\u00eanus \u00e9 normalmente visto ao Sul. Mas quando ele aparece ao Norte, \u00e9 sinal de que vai chover no Sert\u00e3o\u201d.\nBas\u00edlio Pordeus explica tamb\u00e9m que na regi\u00e3o n\u00e3o existe essa hist\u00f3ria de quatro esta\u00e7\u00f5es. S\u00e3o seis meses de ver\u00e3o, que vai de julho a dezembro, e seis meses de inverno, de janeiro a junho. Os seis \u00faltimos meses de um ano, portanto, s\u00e3o de an\u00e1lises para tentar antecipar o que vai acontecer nos seis primeiros meses do ano seguinte.\n\u201cA natureza \u00e9 uma seta indicativa e a gente precisa aprender a navegar por ela\u201d, filosofa.\nA m\u00e3e de Bas\u00edlio, ele conta, morreu com 90 anos. Antes, ela j\u00e1 aprendera com a bisav\u00f3 dele, e assim por diante. \u201cFaz pelo menos 200 anos que esse conhecimento est\u00e1 com a gente\u201d, orgulha-se.\nE se as previs\u00f5es em Catol\u00e9 do Rocha s\u00e3o pessimistas, Bas\u00edlio Pordeus \u00e9 puro otimismo para o inverno de 2023 em Sousa:\n\u201cJ\u00e1 tem chuva no poente de nossa regi\u00e3o\", poetiza Pordeus.\nIrm\u00e3o de Bas\u00edlio, Jo\u00e3o enumera algumas outras t\u00e9cnicas que a fam\u00edlia utiliza para bater o veredito sobre se o inverno ser\u00e1 bom ou ruim. Ele explica, por exemplo, que antes do per\u00edodo de chuvas a terra costuma sugar a \u00e1gua que tem na superf\u00edcie. Isso significa que, ao levantar uma pedra, se ela estiver suada na parte de baixo, \u00e9 sinal de chuva em breve.\nEle cita ainda que a flora\u00e7\u00e3o do mandacaru acontece sempre tr\u00eas dias antes da chuva e que cupim gordo, robusto, com asas, \u00e9 sin\u00f4nimo de chuva em oito dias. Tem tamb\u00e9m a biratanha, uma planta do Sert\u00e3o que, quando p\u00f5e frutos no m\u00eas de outubro, prenuncia o inverno no ano seguinte.\n\u201cN\u00f3s somos natureza. Tudo \u00e9 natureza. Quando percebemos esses sinais, j\u00e1 come\u00e7amos a preparar os cortes de terra para o plantio\u201d, anima-se.\nMandacaru, como floresce, prenuncia chuva para tr\u00eas dias \u00e0 frente, de acordo com Jo\u00e3o Pordeus\nPhelipe Caldas\/g1\nResgate da cultura sertaneja\nO professor Caetano Jos\u00e9 de Lima, do Instituto Federal da Para\u00edba (IFPB) em Sousa, \u00e9 um entusiasta da sabedoria popular promovida pelos profetas da chuva. E h\u00e1 alguns anos ele promove no campus de Catol\u00e9 do Rocha da institui\u00e7\u00e3o um encontro entre os profetas.\nEle \u00e9 professor da disciplina de Apicultura e Meliponicultura e sobrinho de um profeta da chuva do Cear\u00e1, onde eventos do tipo j\u00e1 acontecem h\u00e1 quase 30 anos. Foi de l\u00e1 que veio a inspira\u00e7\u00e3o para o encontro paraibano, que acontece sempre no m\u00eas de janeiro. \nCaetano Jos\u00e9 de Lima, professor do IFPB e organizador do evento que re\u00fane os profetas das chuvas todos os anos\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nOs profetas presentes d\u00e3o suas previs\u00f5es e, ao t\u00e9rmino do per\u00edodo de inverno, fazem uma avalia\u00e7\u00e3o sobre quem acertou e quem errou nos progn\u00f3sticos. \n\u201cO \u00edndice de acerto \u00e9 alto\u201d, garante Caetano.\nDe toda forma, n\u00e3o se trata de uma mera competi\u00e7\u00e3o para ver quem acerta mais. De acordo com o professor, o encontro \u00e9 um resgate da cultura popular e a preserva\u00e7\u00e3o de um saber tradicional que \u00e9 cultivado a partir de um conhecimento emp\u00edrico que o sertanejo possui sobre sua regi\u00e3o.\nEle explica que todos os anos consegue reunir algo em torno de 30 profetas. Mas a ideia \u00e9 realizar um censo pelo Sert\u00e3o, j\u00e1 que o n\u00famero de observadores da natureza deve ser muito maior. \u201cAinda \u00e9 um evento pequeno, porque \u00e9 restrito \u00e0 regi\u00e3o\u201d, explica.\nSaber quando e o quanto vai chover no Sert\u00e3o da Para\u00edba pode ser o segredo para uma boa colheita\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nOutro di\u00e1logo que Caetano espera fazer um dia \u00e9 com os meteorologistas. Promover um interc\u00e2mbio entre ci\u00eancia e empirismo. Trocar experi\u00eancias dos dois lados. Ele destaca, inclusive, que muitos especialistas j\u00e1 aderiram ao debate, mas admite que essa quest\u00e3o entre ci\u00eancia e tradi\u00e7\u00e3o ainda provoca conflitos.\nApesar das dificuldades, contudo, ele \u00e9 da opini\u00e3o que o encontro anual cumpre um papel importante:\n\u201cEstamos ajudando a resgatar uma cultura tradicional para outras gera\u00e7\u00f5es de agricultores paraibanos\u201d, resume.\nEncontro de 2023 dos profetas aconteceu nessa ter\u00e7a-feira (24)\nBeto Silva\/TV Para\u00edba\nV\u00eddeos mais assistidos da Para\u00edba ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>      Saber se vai chover ou n\u00e3o \u00e9 fundamental para o sucesso da colheita, ensinam os profetas. Tradi\u00e7\u00e3o popular segue de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o em ro\u00e7ados e assentamentos paraibanos. 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