{"id":8620,"date":"2023-01-07T07:23:48","date_gmt":"2023-01-07T10:23:48","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2023\/01\/07\/afroturismo-estudante-cria-projeto-que-traca-rotas-da-historia-negra-na-paraiba.ghtml"},"modified":"2023-01-07T07:23:48","modified_gmt":"2023-01-07T10:23:48","slug":"afroturismo-estudante-cria-projeto-que-traca-rotas-da-historia-negra-na-paraiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2023\/01\/07\/afroturismo-estudante-cria-projeto-que-traca-rotas-da-historia-negra-na-paraiba\/","title":{"rendered":"Afroturismo: estudante cria projeto que tra\u00e7a rotas da hist\u00f3ria negra na Para\u00edba"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/C3C8EErNowI7ZqDvEIkxb2QYQV0=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/K\/W\/iB1xc5RfeI2cXcfxyYjQ\/afro-turismo-11.jpg\" \/><br \/>   Desenvolvido por aluna da UFPB, a iniciativa pretende valorizar cultura e religi\u00e3o, al\u00e9m de discutir racismo estrutural.  Uma das rotas fica na cidade de Alhandra, s\u00edmbolo da Jurema Sagrada. \nJosimar Diniz \/ TV Cabo Branco \nMem\u00f3ria \u00e9 sin\u00f4nimo de conserva\u00e7\u00e3o. Na perspectiva hist\u00f3rica os efeitos s\u00e3o m\u00faltiplos, a mem\u00f3ria serve para evitar a repeti\u00e7\u00e3o de grandes erros, com base no passado, e para reconhecer a import\u00e2ncia de v\u00e1rios povos. Foi nesse vi\u00e9s que surgiu um projeto de valoriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria negra na Para\u00edba, atrav\u00e9s do mapeamento de rotas tur\u00edsticas que mostram passos anteriores desta popula\u00e7\u00e3o. \nO afroturismo \u00e9 o objeto de pesquisa de B\u00e1rbara Ten\u00f3rio, a estudante est\u00e1 no processo de conclus\u00e3o do curso de turismo na Universidade Federal da Para\u00edba. Durante os estudos ela descobriu o trabalho de retomada de rotas negras em outros estados e buscou algo semelhante na Para\u00edba, mas n\u00e3o encontrou. Foi quando decidiu implementar a iniciativa. \n\u201c\u00c9 um projeto importante para que a gente possa construir a identidade brasileira trazendo todas as hist\u00f3rias. Muitas vezes a contribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 apagada, as rotas mostram a diversidade de culturas, religi\u00f5es e mem\u00f3rias espalhadas pelo estado\u201d, relata B\u00e1rbara. \nB\u00e1rbara Ten\u00f3rio \u00e9 estudante de turismo na UFPB e criou o projeto Sankrota. \nArquivo pessoal\nO resgate de ra\u00edzes perdidas ou negligenciadas opera um papel importante na valoriza\u00e7\u00e3o da autoestima coletiva da comunidade negra, e \u00e9 um dos focos do afroturismo. O campo age tanto como estudo quanto modelo de neg\u00f3cios, onde as viv\u00eancias negras s\u00e3o o centro das descobertas que esse tipo de turismo pode proporcionar.\nAs rotas mapeadas, a exemplo das que integram o Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso de B\u00e1rbara, t\u00eam passado e contexto distintos. Em Jo\u00e3o Pessoa, a estudante mapeou o Ponto de Cem R\u00e9is, no Centro. No local onde fica, hoje, o viaduto Dam\u00e1sio Franca, em 1697 foi constru\u00eddo um dos poucos locais em que pessoas negras pudessem professar f\u00e9 dentro das leis da \u00e9poca: a Igreja do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos. \nViaduto Dam\u00e1sio Franca, no Centro de Jo\u00e3o Pessoa. \nMagno Oliveira \/ Tv Cabo Branco \nA igreja foi demolida na d\u00e9cada de 1920, a constru\u00e7\u00e3o do viaduto foi tida como um marco do progresso da cidade. A demoli\u00e7\u00e3o sem que se fizesse men\u00e7\u00e3o ao que se tinha antes no local foi, para B\u00e1rbara, o apagamento de muita resist\u00eancia. \n\u201cAl\u00e9m da igreja em si existia a Irmandade dos Homens Pretos, um grupo que se fortalecia pra combater injusti\u00e7as. Eles se reuniam no centro da pra\u00e7a e havia manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais como maracatu em datas importantes. Era um s\u00edmbolo negro na cidade\u201d, explica a pesquisadora. \nPonto de Cem R\u00e9is, Centro de Jo\u00e3o Pessoa, antes da constru\u00e7\u00e3o do viaduto. \nArquivo pesquisa \nA poucos metros do Ponto de Cem R\u00e9is, uma outra pra\u00e7a integra a rota afrotur\u00edstica, a Bar\u00e3o do Rio Branco. O destino \u00e9 conhecido atualmente por abrigar eventos de samba e cultura popular, onde parte da popula\u00e7\u00e3o negra pessoense se diverte ao som de grandes nomes da m\u00fasica preta do pa\u00eds. \nApelidada de Pra\u00e7a do Chorinho por causa da m\u00fasica, o ch\u00e3o que hoje abriga riso j\u00e1 foi espa\u00e7o de muito pranto. Numa das extremidades da pra\u00e7a, onde fica o busto do Bar\u00e3o do Rio Branco, esteve, at\u00e9 o s\u00e9culo 17, um pelourinho. L\u00e1 aconteciam os a\u00e7oites e enforcamentos de pessoas negras escravizadas. \nPra\u00e7a Rio Branco, Centro de Jo\u00e3o Pessoa. Na imagem o busto, local onde ficava o pelourinho. \nClara Rezende \nO ponto tamb\u00e9m era conhecido por ser escolhido por escravistas para compra e venda das pessoas que, na \u00e9poca, eram tidas como mercadoria. Tamb\u00e9m na Rio Branco foi constru\u00edda a Cadeia P\u00fablica, que de acordo com a pesquisadora B\u00e1rbara Ten\u00f3rio \u00e9 outro reflexo das chagas do povo preto paraibano. \n\u201cDepois que a escravid\u00e3o foi abolida n\u00e3o teve pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Algumas leis como a da vadiagem, proibia negros de circularem pela cidade caso n\u00e3o tivessem trabalho formal. Medidas assim fizeram com que a Cadeia P\u00fablica fosse um local para trancafiar pretos\u201d, explica. \nNum reflexo hist\u00f3rico as pris\u00f5es seguem ainda abarrotadas de corpos negros. Conforme dados do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2021, 67,5% das pessoas encarceradas no Brasil s\u00e3o negras. N\u00fameros como esse e o contexto trazido \u00e0 tona pela pesquisa afrotur\u00edstica remontam ao conceito de racismo estrutural.\nO passado escravagista e os \u00edndices que envolvem as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o negra atualmente deixam n\u00edtidos que a hierarquia racial que oprime uns e privilegia outros est\u00e1 na base da sociedade. O fil\u00f3sofo e escritor Silvio Almeida defende a tese em seu livro:\n\u201cRacismo \u00e9 domina\u00e7\u00e3o [\u2026] A manuten\u00e7\u00e3o deste poder adquirido depende da capacidade do grupo dominante de institucionalizar seus interesses, impondo a sociedade regras, padr\u00f5es de condutas e modos de racionalidade que tornem \u201cnormal\u201d o seu dom\u00ednio\u201d, afirma Silvio na obra \u2018O que \u00e9 Racismo Estrutural?\u2019.\nO projeto de B\u00e1rbara Ten\u00f3rio quebra, assim, essa normalidade. A estudante retoma as mem\u00f3rias de pot\u00eancia e de dor do povo negro com o objetivo de atribuir sentido ao que se v\u00ea hoje, ela acredita que essa tamb\u00e9m \u00e9 uma estrat\u00e9gia antirracista. \nProjeto tra\u00e7a rotas da hist\u00f3ria negra na Para\u00edba\nRotas de f\u00e9: a resist\u00eancia da Jurema Sagrada \nA pesquisa \u00e9 norteada por um vasto arcabou\u00e7o hist\u00f3rico, para isso a jovem conta com o suporte de Danilo Santos, historiador e orientador do seu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso. O professor \u00e9 integrante do N\u00facleo de Estudos Afro-brasileiros e Ind\u00edgenas da UFPB (Neabi), e ao falar do projeto acredita que uma das principais contribui\u00e7\u00f5es \u00e9 a possibilidade de torn\u00e1-lo um modelo de neg\u00f3cio. \n\u201cN\u00f3s trabalhamos na perspectiva acad\u00eamica e t\u00e9cnica, o afroturismo \u00e9 pouco abordado na Para\u00edba\u201d, destaca o professor. \nO modelo de neg\u00f3cio em curso pretende levar as pessoas interessadas \u00e0s rotas, permitindo que elas conhe\u00e7am e vivenciem, a depender do contexto, o que a hist\u00f3ria preta deixou em cada canto. Danilo Santos defende que h\u00e1 dois pontos relevantes nesta iniciativa empreendedora: a valoriza\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, al\u00e9m do turismo sustent\u00e1vel que B\u00e1rbara pode desenvolver em parceria com os locais. \nEstes aspectos est\u00e3o presentes em uma das rotas da Jurema Sagrada, tra\u00e7ada por B\u00e1rbara e Danilo. A 47 quil\u00f4metros da capital Jo\u00e3o Pessoa est\u00e1 o Templo Mestra Jandercilha, no cora\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de Alhandra. O lugar sagrado teve sua estrutura f\u00edsica constru\u00edda em 1970, mas os cultos v\u00eam de muito antes. \nTemplo Mestra Jandercilha, em Alhandra, Regi\u00e3o Metropolitana de Jo\u00e3o Pessoa. \nJosimar Diniz \/ Tv Cabo Branco \nQuando o professor Danilo Santos divide em valoriza\u00e7\u00e3o e possibilidade de turismo sustent\u00e1vel ele acredita na rota da Jurema Sagrada como melhor exemplo, visto que o afroturismo fortaleceria a identidade religiosa que ainda \u00e9 desconhecida por muitos, e levaria \u00e0 fam\u00edlia respons\u00e1vel pelo templo uma economia livre de explora\u00e7\u00e3o, com base no compartilhamento de hist\u00f3rias. \n\u201cO afroturismo proporciona viv\u00eancias que o turismo tradicional, por causa do racismo estrutural, n\u00e3o soube aproveitar. A Jurema Sagrada aqui de Alhandra est\u00e1 na regi\u00e3o metropolitana de Jo\u00e3o Pessoa, um dos lugares mais tur\u00edsticos, e pouco se conhece\u201d, relata o professor. \nA fam\u00edlia juremeira de Alhandra hoje tem como tronco m\u00e3e e filho. Lucas Sousa \u00e9 mestre juremeiro e toca com orgulho o templo constru\u00eddo por sua av\u00f3 materna, Jardecilha. Jurema \u00e9 a \u00e1rvore sagrada que d\u00e1 nome a uma religi\u00e3o n\u00e3o apenas brasileira, mas nordestina, de origem ind\u00edgena. Apesar do ber\u00e7o pertencer aos povos origin\u00e1rios, a Jurema recebeu forte influ\u00eancia dos povos negros que vieram ao Brasil escravizados. \nA religi\u00e3o tem a natureza como centro de tudo, os juremeiros t\u00eam como tradi\u00e7\u00e3o a ingest\u00e3o de beberagens e o fumo de ervas retiradas de v\u00e1rias \u00e1rvores consideradas sagradas. S\u00e3o as for\u00e7as dos ecossistemas e dos antepassados que conduzem quem protege a cren\u00e7a de toda intoler\u00e2ncia religiosa. \nLucas Sousa, mestre juremeiro e respons\u00e1vel pelo Tempo Mestra Jandercilha. \nJosimar Diniz \/ Tv Cabo Branco\n\u201cEssa \u00e1rvore nos liga aos nossos ancestrais. Manter essa tradi\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m do que \u00e9 f\u00e9, \u00e9 respeito aos nossos ancestrais. Antigamente o culto era proibido, atrav\u00e9s de priva\u00e7\u00e3o de liberdade e at\u00e9 atentados contra a vida. Hoje quem pratica a Jurema leva a mem\u00f3ria dos ancestrais. \u00c9 a hist\u00f3ria dos meus antepassados neste templo\u201d, ressalta Lucas. \nA dan\u00e7a, a festa, as vestes. Recortes de uma mem\u00f3ria secular que mostram a resist\u00eancia de v\u00e1rios povos. Manter a Jurema viva e segura \u00e9 o trabalho de vida de Nina Paulino, m\u00e3e do mestre Lucas. Ela herdou n\u00e3o s\u00f3 a f\u00e9, mas o compromisso da m\u00e3e Jandercilha, de levar a pot\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra a quem quiser entender mais sobre. \nNina Paulino \u00e9 juremeira e carrega o legado da m\u00e3e, construtora do templo.\nJosimar Diniz \/ Tv Cabo Branco\n\u201cAqui \u00e9 um hospital, recebemos todos. Nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidar das pessoas e manter nossas origens. Minha m\u00e3e come\u00e7ou com 5 anos de idade, a import\u00e2ncia que tinha pra ela tem muito mais pra gente. A Jurema \u00e9 vida, \u00e9 minha m\u00e3e. Como eu queria que as pessoas respeitassem a Jurema\u201d, desabafa Nina. \nNo retorno a Jo\u00e3o Pessoa, \u00e0s margens da rodovia, a hist\u00f3ria da Jurema em Alhandra ainda guarda muito para contar. Conhecida como Capelinha de Maria do Acais, uma pequena igreja \u00e9 o s\u00edmbolo da resist\u00eancia \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa. A oralidade dos ancestrais juremeiros passou de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o que a capela foi constru\u00edda por Maria do Acais, depois de ser impedida por um padre de cultuar a Jurema dentro de uma igreja cat\u00f3lica tradicional. \nEla defendeu o sincretismo presente na f\u00e9, mas mandou suficiente. Ent\u00e3o decidiu construir um lugar seguro para abrigar a multiplicidade dos cultos. A capelinha \u00e9 apontada pelo professor Danilo como uma continuidade da rota da Jurema Sagrada, uma demonstra\u00e7\u00e3o de que turismo \u00e9 sobre preserva\u00e7\u00e3o cultural. \n\u201cMeu trabalho \u00e9 de resgate, a Para\u00edba \u00e9 um fragmento do afroturismo no Brasil. S\u00e3o as nossas ra\u00edzes, \u00e9 uma quest\u00e3o sociohist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m de sa\u00fade. Falar da nossa mem\u00f3ria \u00e9 proporcionar autoestima porque descobrimos nosso valor na constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d, conclui a estudante B\u00e1rbara Ten\u00f3rio.  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