{"id":79828,"date":"2026-10-17T14:25:17","date_gmt":"2026-10-17T17:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2026\/10\/17\/super-el-nino-evento-climatico-similar-ao-de-2026-matou-quase-10-mil-pessoas-na-paraiba-ha-dois-seculos.ghtml"},"modified":"2026-10-17T14:25:17","modified_gmt":"2026-10-17T17:25:17","slug":"super-el-nino-evento-climatico-similar-ao-de-2026-matou-quase-10-mil-pessoas-na-paraiba-ha-dois-seculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2026\/10\/17\/super-el-nino-evento-climatico-similar-ao-de-2026-matou-quase-10-mil-pessoas-na-paraiba-ha-dois-seculos\/","title":{"rendered":"Super El Ni\u00f1o: evento clim\u00e1tico similar ao de 2026 matou quase 10 mil pessoas na Para\u00edba h\u00e1 dois s\u00e9culos"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/kgzuVHN7gaCnp5TwmmM0lraMQj4=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/W\/e\/eJBGJASq2p5zw6KrC93Q\/fant-el-nino-campos-ceara-jn-frame-1073.jpeg\" \/><br \/>     Super El Ni\u00f1o: evento clim\u00e1tico semelhante ao de 2026 matou quase 10 mil pessoas na Para\u00edba h\u00e1 dois s\u00e9culos\nAcervo\/TV Globo\nUm evento clim\u00e1tico considerado de grandes propor\u00e7\u00f5es aconteceu entre 1877 e 1879 e teve um grande impacto no Brasil. Ele \u00e9 apontado como um dos de maior for\u00e7a em toda a hist\u00f3ria, aumentando exponencialmente a temperatura em locais j\u00e1 secos e tamb\u00e9m escalando o n\u00edvel de chuvas em regi\u00f5es historicamente j\u00e1 chuvosas. A Para\u00edba foi um dos estados mais atingidos pla estiagem na \u00e9poca. Chamado de 'Super El Ni\u00f1o', um evento de propor\u00e7\u00f5es parecidas ao do s\u00e9culo XIX vai se repetir em 2026. \n\u2705 Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp\nNeste contexto, a Para\u00edba foi um dos estados mais atingidos pela estiagem. De acordo com o Senado Federal, cerca de 500 mil pessoas morreram somente na regi\u00e3o Nordeste por conta do evento, que gerou fortes secas, falta de alimentos e epidemias de diversas doen\u00e7as. \nO g1 conversou com a mestranda em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB), Ana Paula Moura da Costa, que estuda atualmente a quest\u00e3o da Grande Seca, como ficou conhecida. A historiadora explicou que, pelos registros da \u00e9poca, somente na Para\u00edba, quase 10 mil pessoas morreram em tr\u00eas anos com as quest\u00f5es que o evento imp\u00f4s. \nA reportagem tamb\u00e9m conversou com especialistas do clima para entender o novo fen\u00f4meno e, ainda, com autoridades para saber dos impactos atuais do Super El Ni\u00f1o e quais as medidas de preven\u00e7\u00e3o que est\u00e3o sendo adotadas. \nMais de 400 pessoas podem morrer na Para\u00edba por conta de problemas relacionados ao El Ni\u00f1o deste ano, de acordo com um levantamento feito pela Universidade de Chicago, atrav\u00e9s do Laborat\u00f3rio de Impacto do Clima (Climate Impact Lab, em ingl\u00eas). Leia mais abaixo. \nAgora no g1\nO El Ni\u00f1o de 1877 e a Grande Seca na Para\u00edba\nMapa das prov\u00edncias afetadas pela Grande Seca produzido pelo engenheiro e abolicionista Andr\u00e9 Rebou\u00e7as divulgado pelo Senado Federal\nArquivo Nacional\nDe acordo com Ana Paula, a grande estiagem que come\u00e7ou em 1877 foi sem precedentes, muito diferente daquilo que j\u00e1 acontecia no Nordeste e que j\u00e1 era de conhecimento da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o em termos de seca. \nO estado, no entanto, conforme os registros, n\u00e3o tinha uma boa estrutura para se antecipar aos problemas ocasionados pelo evento e, muito menos, para mitigar os efeitos de uma seca sem precedentes. \n\"Ela n\u00e3o tinha estrutura. Ent\u00e3o era uma quest\u00e3o que j\u00e1 vinha sendo discutida h\u00e1 anos. A gente pode ler isso no relat\u00f3rio do presidente de prov\u00edncia. E quando chega a seca, ainda assim, a capital da Para\u00edba ainda est\u00e1 muito fr\u00e1gil. Ent\u00e3o n\u00e3o vai ser s\u00f3 uma quest\u00e3o de falta d'\u00e1gua, mas sim uma quest\u00e3o de desestrutura\u00e7\u00e3o total na vida tanto das pessoas que v\u00e3o vindo do interior para a capital, quanto das pessoas da capital que v\u00e3o receber nessas pessoas\", explicou.\nAl\u00e9m da estrutura prec\u00e1ria das institui\u00e7\u00f5es do estado, a historiadora explicou tamb\u00e9m que com a seca houve um grande movimento de pessoas em busca justamente do que faltava: \u00e1gua e, para os doentes, atendimento de sa\u00fade. Por isso, houve uma grande migra\u00e7\u00e3o interna na Para\u00edba. \n\"Ent\u00e3o v\u00e3o ter migrantes vindo de fora achando que a vida na capital pode ser melhor do que a do interior. E quando eles chegam na capital, a capital n\u00e3o tem a estrutura para lidar com aquela situa\u00e7\u00e3o. E, enfim, vai ser uma situa\u00e7\u00e3o bem complicada. O resultado pr\u00e1tico disso, n\u00e3o s\u00f3 social, \u00e9 que por toda a Para\u00edba vai ocorrer um colapso, um colapso especialmente do sistema agr\u00edcola que j\u00e1 estava sofrendo porque anteriormente a gente teve uma crise do algod\u00e3o e do a\u00e7\u00facar\", explicou. \nEsse cen\u00e1rio de crise pr\u00e9via ao fen\u00f4meno natural ampliou ainda mais os problemas que a Para\u00edba sofreria por conta da seca. E para entend\u00ea-los, \u00e9 necess\u00e1rio voltar um pouco no tempo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise abordada. \nGuerra Civil nos EUA beneficiou com\u00e9rcio de algod\u00e3o na PB\nO estado, anos antes passou a ser uma das principais linhas de um com\u00e9rcio do algod\u00e3o ap\u00f3s os Estados Unidos entrarem em guerra civil, entre 1861 e 1865, a chamada Guerra de Secess\u00e3o, que colocou em combate os estados do Norte contra os estados do sul. \nO benef\u00edcio, no entanto, n\u00e3o se estendeu muito, porque a guerra parou e os Estados Unidos voltaram a ser o principal mercado de algod\u00e3o.  Esse cen\u00e1rio foi, segundo a historiadora, um terreno f\u00e9rtil para doen\u00e7as, mortes e calamidade social. \n\"A gente vai ter entre 1861 e 1865 a Guerra de Secess\u00e3o Americana e ela vai ser a grande respons\u00e1vel por um per\u00edodo de ascens\u00e3o e tamb\u00e9m por um per\u00edodo de colapso da cultura do algod\u00e3o na Para\u00edba e tamb\u00e9m no Cear\u00e1, Pernambuco e Maranh\u00e3o, porque como os Estados Unidos nesse per\u00edodo \u00e9 um dos maiores fornecedores mundiais de algod\u00e3o e eles v\u00e3o entrar em guerra. O Brasil vai ser procurado para ser esse novo fornecedor e por causa disso vai beneficiar diretamente v\u00e1rias prov\u00edncias do nordeste brasileiro mas quando a guerra acaba esse benef\u00edcio tamb\u00e9m se acaba, ent\u00e3o vai ter uma queda da economia do Nordeste\", disse. \nNo mesmo per\u00edodo pr\u00e9vio ao da Grande Seca de 1877 e a Guerra de Secess\u00e3o Americana, houve tamb\u00e9m a descentraliza\u00e7\u00e3o da comercializa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar do Nordeste e consequentemente da Para\u00edba, para a Holanda, que desenvolveu t\u00e9cnicas de extra\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7adas. \n\"Come\u00e7a a decair porque os holandeses v\u00e3o desenvolver t\u00e9cnicas mais modernas de produ\u00e7\u00e3o e substituir o a\u00e7\u00facar da cana pelo a\u00e7\u00facar de beterraba, a\u00e7\u00facar da cana, era produzido aqui, eles v\u00e3o procurar outros meios de ter um a\u00e7\u00facar mais f\u00e1cil, mais barato e eles encontram a\u00e7\u00facar de beterraba. Ent\u00e3o a\u00ed, em meados do s\u00e9culo XIX, a gente vai sofrer uma crise econ\u00f4mica que vai anteceder uma crise clim\u00e1tica, ent\u00e3o outro agravante dessa situa\u00e7\u00e3o\", disse. \nAp\u00f3s a crise, outras crises\nIlustra\u00e7\u00e3o do jornal O Besouro mostra as v\u00edtimas da Grande Seca\nBiblioteca Nacional Digital\/Reprodu\u00e7\u00e3o de Senado Federal\nCom esse cen\u00e1rio fragilizado, de perdas de poder econ\u00f4mico, a grande migra\u00e7\u00e3o de pessoas internamente ap\u00f3s a crise clim\u00e1tica teve como origem uma composi\u00e7\u00e3o de outros grandes problemas. A historiadora Ana Paula explicou o que o paraibano encontrou \u00e0 \u00e9poca. \n\"As planta\u00e7\u00f5es v\u00e3o secar, as coisas v\u00e3o se perder, a gente n\u00e3o vai ter pastos, rebanhos inteiros v\u00e3o ser dizimados por causa da seca e a\u00ed a economia agr\u00edcola simplesmente vai ruir. Claro que o impacto mais doloroso disso tudo, tudo isso vai ser uma consequ\u00eancia especialmente humana. A falta extrema de tudo vai gerar uma crise de fome e sede generalizada no interior e \u00e9 o que vai levar \u00e0 migra\u00e7\u00e3o\", disse. \nCom isso, come\u00e7ou tamb\u00e9m o lado sanit\u00e1rio da crise. Com uma forte seca, pouca alimenta\u00e7\u00e3o e uma grande migra\u00e7\u00e3o, doen\u00e7as come\u00e7aram a surgir e se propagar. Diversas epidemias foram registradas nos tr\u00eas anos que o evento clim\u00e1tico acometeu o estado. \n\"N\u00e3o t\u00ednhamos, por exemplo, a vacina da var\u00edola. Quando os migrantes chegam na capital, eles n\u00e3o t\u00eam esse anticorpo para se proteger e, enfim, a prov\u00edncia vai ser varrida por epidemias. A gente vai ter not\u00edcias sobre v\u00e1rios tipos de febre, mal\u00e1ria, bexiga, desinteria e, claro, a mais cruel de todas que \u00e9 a var\u00edola e a\u00ed o desespero vai ser muito grande\", disse. \nAinda nesse aspecto sanit\u00e1rio, h\u00e1 um cen\u00e1rio de desconhecimento de alguns tipos de doen\u00e7a que a popula\u00e7\u00e3o enfrentava. Ent\u00e3o, os jornais da \u00e9poca e at\u00e9 governantes tratavam as doen\u00e7as apenas como \"febres\".\n\"A gente vai ter um terror documentado pela imprensa sobre febres que eles n\u00e3o entendiam do que se tratava. Eles s\u00f3 chamaram de febres, mas que estavam matando dezenas de pessoas por dia e que eles n\u00e3o entendiam o que se tratava mesmo. Eles n\u00e3o tinham esse conhecimento m\u00e9dico, higi\u00eanico pra dar um diagn\u00f3stico do que estava ocorrendo\", ressaltou. \nSert\u00e3o e Alto Sert\u00e3o foram as regi\u00f5es mais atingidas\nReprodu\u00e7\u00e3o de uma imagem do Hotel Globo em 1910\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo\/Jornal A Uni\u00e3o\nA historiadora tamb\u00e9m disse que localidades do estado foram atingidas de formas diferentes. O Sert\u00e3o e o Alto Sert\u00e3o, incluindo localidades como Patos, Sousa, Pianc\u00f3, Pombal, S\u00e3o Jo\u00e3o do Rio do Peixe e Catol\u00e9, foram duramente castigados pela estiagem, provocando ondas de migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada em dire\u00e7\u00e3o ao litoral. \nOutras regi\u00f5es do interior, como o Cariri e a regi\u00e3o da Borborema, pr\u00f3ximo a Campina Grande, tamb\u00e9m enfrentaram condi\u00e7\u00f5es extremas. Em povoados mais isolados, como Barra de S\u00e3o Miguel, relatos da imprensa, segundo a historiadora, registram doen\u00e7as desconhecidas, mortes em grande escala e a aus\u00eancia de assist\u00eancia m\u00e9dica, agravadas pela falta de animais e meios de transporte para levar ajuda ou conduzir os doentes a centros urbanos, como Jo\u00e3o Pessoa. \nAlgumas \u00e1reas que funcionaram inicialmente como zonas de ref\u00fagio tamb\u00e9m acabaram entrando em colapso. O Brejo, por ser uma regi\u00e3o mais \u00famida e com cidades como Areia, Bananeiras e Lagoa Grande, recebeu muitos retirantes que buscavam escapar da seca, mas n\u00e3o conseguiu suportar o r\u00e1pido aumento populacional e o esgotamento de seus recursos. \nCom basicamente todas as \u00e1reas da Para\u00edba atingidas pelos efeitos da seca, a capital Jo\u00e3o Pessoa apareceu como sendo o lugar que poderia ser o ref\u00fagio dos problemas. Em pouco tempo, a popula\u00e7\u00e3o da capital quase que dobrou. \n\n\"Estima-se, de acordo com o um presidente de prov\u00edncia, mencionou no relat\u00f3rio que 30-35 mil pessoas se aglomeraram na capital. E pensando nisso, \u00e9 absurdo porque de acordo com o Censo de 1872, que tinha acontecido pouqu\u00edssimos anos antes de tudo isso acontecer, a popula\u00e7\u00e3o fixa da capital era em torno de 24 mil pessoas. Ent\u00e3o, literalmente, aumentou o dobro e ainda mais das pessoas naquela capital\", explicou. \nE, ao contr\u00e1rio do que os migrantes imaginavam que iriam encontrar, as condi\u00e7\u00f5es estruturais de Jo\u00e3o Pessoa n\u00e3o eram nada boas, e pioraram com a maior aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas. \n\"Ent\u00e3o a gente tinha uma cidade com uma fraca infraestrutura, era pequena de tamanho, fr\u00e1gil em quest\u00e3o de salubridade e saneamento. Como eu disse, era uma quest\u00e3o que era discutida nos relat\u00f3rios de presidente da prov\u00edncia h\u00e1 muito tempo, mas que nada parecia ser resolvido. Ent\u00e3o, enfim, a cidade vai entrar em colapso. V\u00e3o precisar ser feitos acampamentos de palha improvisados, locais p\u00fablicos foram ficando super lotados, a propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as acelerou, a estat\u00edstica de morte. Ent\u00e3o tudo isso ficou muito, muito intenso\", ressaltou. \nAs mortes\nApesar de v\u00e1rias regi\u00f5es do estado terem sido atingidas de diferentes formas pelo El Ni\u00f1o, apenas em Jo\u00e3o Pessoa houve um maior registro do n\u00famero de mortes, justamente por ser a capital. Por isso, segundo a historiadora, muitas mortes n\u00e3o foram notificadas. \n\"Se a gente imaginar, uma massa gigantesca de pessoas, de imigrantes, que estavam definhando de fome, de sede, estavam doentes, estavam vindo em estradas de terra, de lugares muito distantes. E a\u00ed muitas dessas pessoas morriam e elas eram enterradas no caminho. O nome dessas pessoas sequer chegava num papel oficial do governo\", explicou. \nEspecificamente sobre Jo\u00e3o Pessoa, de acordo com os registros analisados pela historiadora,  9.318 pessoas morreram por conta de problemas em decorr\u00eancia do El Ni\u00f1o, somente no ano de 1878. Isso representou pouco mais de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o inflada da capital por conta dos migrantes. \n\"Para se ter uma dimens\u00e3o disso, a popula\u00e7\u00e3o fixa da capital inteira antes da seca era de 24 mil pessoas. Ent\u00e3o, em menos de um ano, morreu o equivalente a mais de um ter\u00e7o de toda a cidade. Ent\u00e3o, \u00e9 uma taxa de mortalidade grande, dif\u00edcil de imaginar\", disse. \nNesse cen\u00e1rio, se cria tamb\u00e9m uma estigmatiza\u00e7\u00e3o dos retirantes. As doen\u00e7as passam a ser relacionadas com eles. \n\"Os migrantes v\u00e3o ser estigmatizados por essas doen\u00e7as, principalmente nessa rela\u00e7\u00e3o com as doen\u00e7as ven\u00e9reas, porque a s\u00edfilis, por exemplo, vai dizer muito sobre o car\u00e1ter das pessoas, mesmo que a condi\u00e7\u00e3o que aquela doen\u00e7a tenha sido contra\u00edda tenha sido uma quest\u00e3o extrema. Muitas mulheres se prostitu\u00edam nesse per\u00edodo porque elas n\u00e3o tinham como se manter e essa era uma solu\u00e7\u00e3o\", contou. \nConforme a historiadora, esse n\u00e3o era um problema em espec\u00edfico que acometia as pessoas, era outro. \n\"N\u00e3o tinha para onde correr. Ou era var\u00edola, ou era fome, desnutri\u00e7\u00e3o, berib\u00e9ri, doen\u00e7as ven\u00e9reas, s\u00edfilis, mencionada muitas vezes. E tudo isso vai adicionar uma camada moral\", explicou. \nSuper El Ni\u00f1o de 2026 pode ser o mais forte da hist\u00f3ria, diz meteorologista\nImagem de 3 de agosto de 2026, feita com dados do sat\u00e9lite Sentinel-6 Michael Freilich, mostra mudan\u00e7as no n\u00edvel do Oceano Pac\u00edfico associadas ao El Ni\u00f1o.\nSentinel-6 Michael Freilich\/NASA\/NOAA\nSobre o fen\u00f4meno clim\u00e1tico em si, o mestre em meteorologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Ranyere Silva N\u00f3brega, falou que o El Ni\u00f1o de 1877 foi considerado dentro da categoria como \"muito forte\".\n\"\u00c9 interessante entender que o El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno que ocorre com uma certa frequ\u00eancia. Tem a fase positiva, que \u00e9 o El Ni\u00f1o, e a fase negativa, que \u00e9 o La Ni\u00f1a. E, de fato, El Ni\u00f1o produz, na regi\u00e3o Norte e no Nordeste, diminui\u00e7\u00e3o das chuvas e aumento das temperaturas. No caso do Nordeste, o aumento das temperaturas tamb\u00e9m ir\u00e1 impactar na grande taxa de evapora\u00e7\u00e3o, sobretudo porque no Nordeste h\u00e1 muitos reservat\u00f3rios tamb\u00e9m vai influenciar na Amaz\u00f4nia mas Nordeste h\u00e1 muitos reservat\u00f3rios e isso vai influenciar na disponibilidade de \u00e1gua\", disse. \nSobre a compara\u00e7\u00e3o do evento da \u00e9poca com o de 2026, o meteorologista explicou que o evento atual ainda requer mais an\u00e1lise para saber se ser\u00e1 \"forte\" ou \"muito forte\" tal qual o de h\u00e1 dois s\u00e9culos. No entanto, segundo Ranyere, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel afirmar que n\u00e3o ser\u00e1 um evento comum e, sim, algo fora da curva, podendo ser at\u00e9 o mais forte da hist\u00f3ria. \n\"O paralelo est\u00e1 muito ligado \u00e0 intensidade do evento, pois ambos s\u00e3o caracterizados por esse aquecimento do oceano. O aquecimento considerado bem acima da m\u00e9dia. Ent\u00e3o, o evento vai ser classificado, \u00e9 poss\u00edvel, ainda est\u00e1 classificado como evento forte, mas os modelos de comportamento das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico, tanto a superficial quanto a subsuperficial, tamb\u00e9m est\u00e3o indicando que dever\u00e1 se formar um evento muito forte. H\u00e1 indicativos de modelos num\u00e9ricos que possa ser acima de 2,5 graus, tornando talvez o evento mais intenso da hist\u00f3ria\", contou.\nNesse cen\u00e1rio, o meteorologista explicou que embora existam reservat\u00f3rios de \u00e1gua e uma estrutura completamente diferente do estado e do pa\u00eds para responder a um El Ni\u00f1o na compara\u00e7\u00e3o com o evento de 1877, ainda assim, \u00e9 necess\u00e1rio cautelas em rela\u00e7\u00e3o aos reservat\u00f3rios de \u00e1gua. \nEle citou o exemplo de um terceiro El Ni\u00f1o que aconteceu entre 2012 e 2017, que conforme ele n\u00e3o foi t\u00e3o forte quanto h\u00e1 dois s\u00e9culos, mas que j\u00e1 colocou \u00e0 prova a quest\u00e3o do abastecimento de energia e reservas de \u00e1gua no estado. \n\"Temos que lembrar que o Rio S\u00e3o Francisco tamb\u00e9m \u00e9 utilizado para a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica e um outro par\u00e2metro que conhecemos por estresse h\u00eddrico temperaturas muito elevadas aumenta a evapora\u00e7\u00e3o dos reservat\u00f3rios e tamb\u00e9m aumenta a evapotranspira\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o (...) Mas esse per\u00edodo da s\u00e9rie de 2012 a 2017 j\u00e1 demonstrou que em per\u00edodos longos de estiagem podemos ter problemas no colapso de abastecimento, mesmo com a infraestrutura atual, at\u00e9 porque a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco abastece boa parte da Para\u00edba, mas ainda n\u00e3o chega em toda a Para\u00edba\", explicou. \nEm termos de impacto, o especialista disse ainda que potencialmente o evento deste ano pode atingir com mais for\u00e7a a regi\u00e3o do Sert\u00e3o do estado, ao inv\u00e9s do Litoral, por exemplo. Ele enquadra isso como sendo de desdobramento da capacidade de chuvas que a pr\u00f3pria \u00e1rea litor\u00e2nea tem em compara\u00e7\u00e3o ao Sert\u00e3o. \n\"O Litoral tem uma capacidade a um volume maior de chuva do que no Sert\u00e3o. E tamb\u00e9m \u00e9 o per\u00edodo de atua\u00e7\u00e3o do El Ni\u00f1o. O El Ni\u00f1o est\u00e1 se configurando agora. Ent\u00e3o vai afetar j\u00e1 a esta\u00e7\u00e3o chuvosa das regi\u00f5es do Sert\u00e3o. A esta\u00e7\u00e3o chuvosa do Litoral e do Brejo termina agora em agosto ent\u00e3o s\u00f3 vamos ter uma esta\u00e7\u00e3o chuvosa mais consider\u00e1vel para o Litoral, para o Brejo em 2027, ent\u00e3o este \u00e9 o El Ni\u00f1o agora vai afetar j\u00e1 de imediato o Sert\u00e3o\", explicou. \nO levantamento divulgado pela Universidade de Chicago, atrav\u00e9s do Climate Impact Lab, que d\u00e1 conta da proje\u00e7\u00e3o de 420 mortes no estado em decorr\u00eancia do El Ni\u00f1o, fala que essas potenciais mortes podem escalonar ao passar dos meses, entre setembro deste ano e fevereiro do pr\u00f3ximo ano. \nA proje\u00e7\u00e3o fala em 19 mortes em setembro, 34 em outubro, 41 em novembro, 85 em dezembro, 120 em janeiro e ainda 120 em fevereiro. \nPreven\u00e7\u00e3o ao evento clim\u00e1tico deste ano\nConforme a expectativa de que o maior impacto do El Ni\u00f1o neste ano tenha previs\u00e3o para acontecer entre outubro e dezembro, uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es v\u00eam sendo desenvolvidas por diversos \u00f3rg\u00e3os estaduais. \nNo in\u00edcio de setembro, a Para\u00edba criou um grupo para planejar a\u00e7\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o e resposta aos efeitos do El Ni\u00f1o na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. Batizado de GC El Ni\u00f1o\/PB, o grupo reunir\u00e1 diversos \u00f3rg\u00e3os e ter\u00e1 at\u00e9 60 dias para apresentar uma proposta de Plano Estadual de Prepara\u00e7\u00e3o e Resposta aos Eventos Clim\u00e1ticos Associados ao El Ni\u00f1o.\nEsse grupo dever\u00e1 coordenar e integrar a\u00e7\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia, monitoramento, alerta, resposta e recupera\u00e7\u00e3o relacionadas a eventos clim\u00e1ticos associados ao El Ni\u00f1o que possam afetar a sa\u00fade no estado. \nAl\u00e9m disso, os \u00f3rg\u00e3os devem acompanhar dados meteorol\u00f3gicos e clim\u00e1ticos, disponibilidade h\u00eddrica e qualidade da \u00e1gua, eventos extremos e indicadores de sa\u00fade. Tamb\u00e9m ser\u00e3o observadas doen\u00e7as transmitidas por vetores, doen\u00e7as relacionadas \u00e0 \u00e1gua e aos alimentos, problemas respirat\u00f3rios, efeitos da exposi\u00e7\u00e3o ao calor e \u00e0 fuma\u00e7a\nAo g1, a promotora Cl\u00e1udia Cabral, coordenadora do Centro de Apoio Operacional \u00e0s Promotorias de Justi\u00e7a de Defesa do Meio Ambiente (CAO Meio Ambiente), do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Para\u00edba (MPPB), um dos principais \u00f3rg\u00e3os na atua\u00e7\u00e3o nos impactos do evento, disse que as a\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo pensadas em conjunto. \n\"O Minist\u00e9rio P\u00fablico, atrav\u00e9s dessa coordena\u00e7\u00e3o do CAO Meio Ambiente, est\u00e1 trabalhando de forma articulada e com vistas a medidas preventivas. E essas medidas passam pela implementa\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica permanente de preven\u00e7\u00e3o aos eventos clim\u00e1ticos. Isso envolve o fortalecimento da defesa civil\", disse. \nCom a atua\u00e7\u00e3o preventiva, a promotora tamb\u00e9m busca com que isso se estenda permanentemente para a estrutura estadual e municipal. Por isso, a integra\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada preponderante para o resultado. H\u00e1 at\u00e9 a discuss\u00e3o sobre uma sala de situa\u00e7\u00e3o para monitoramento. \n\"Com defesas civis municipais estruturadas e integradas \u00e0 Defesa Civil do estado, envolve plano de a\u00e7\u00e3o, plano de conting\u00eancia, uma sala de situa\u00e7\u00e3o para monitoramento permanente da situa\u00e7\u00e3o, diagn\u00f3stico de cada munic\u00edpio, considerando o risco, situa\u00e7\u00e3o de mananciais, do abastecimento d'\u00e1gua, da agricultura, a capacidade da rede de sa\u00fade, enfim\", explicou. \nA promotora destacou que atualmente mais de 100 munic\u00edpios na Para\u00edba est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia por diversos problemas no estado. A articula\u00e7\u00e3o, segundo ela, busca superar apenas decretos de situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, para elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o. \n\"O Minist\u00e9rio P\u00fablico busca justamente mudar a l\u00f3gica do simples decreto de emerg\u00eancia para uma pol\u00edtica permanente de preven\u00e7\u00e3o aos eventos clim\u00e1ticos extremos, \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que j\u00e1 s\u00e3o uma realidade. J\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, n\u00f3s j\u00e1 estamos convivendo com ela, n\u00e3o \u00e9 algo para o futuro e \u00e9 preciso mudar essa l\u00f3gica. Em decorr\u00eancia disso, cada munic\u00edpio precisa ter sua defesa civil estruturada\", ressaltou. \nTamb\u00e9m com pensamento de que os eventos clim\u00e1ticos extremos n\u00e3o podem ser tratados ap\u00f3s acontecerem, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do pa\u00eds, divulgou, em coletiva realizada em meados de setembro uma s\u00e9rie de planos para mitigar o impacto do El Ni\u00f1o em cada regi\u00e3o do Brasil.\nNa coletiva, o \u00f3rg\u00e3o nacional informou que vem tendo contato com as secretarias estaduais de sa\u00fade para saber os planos individuais sobre o evento clim\u00e1tico. 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