{"id":79285,"date":"2026-10-11T10:00:46","date_gmt":"2026-10-11T13:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2026\/10\/11\/alem-do-sao-joao-cultura-de-campina-grande-se-mantem-viva-durante-todo-o-ano.ghtml"},"modified":"2026-10-11T10:00:46","modified_gmt":"2026-10-11T13:00:46","slug":"campina-grande-162-anos-alem-do-sao-joao-cultura-da-cidade-se-mantem-viva-durante-todo-o-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2026\/10\/11\/campina-grande-162-anos-alem-do-sao-joao-cultura-da-cidade-se-mantem-viva-durante-todo-o-ano\/","title":{"rendered":"Campina Grande, 162 anos: al\u00e9m do S\u00e3o Jo\u00e3o, cultura da cidade se mant\u00e9m viva durante todo o ano"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/8uRqbOdA0Lshh_YNC2A1JBv_dbY=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/H\/r\/mUO4Y0RQeBBSAjcyeLwA\/imagem-02-acude-velho.jpg\" \/><br \/>     O A\u00e7ude Velho se tornou um cart\u00e3o postal e patrim\u00f4nio cultural de Campina Grande\nDivulga\u00e7\u00e3o\nH\u00e1 mais de quarenta anos, O Maior S\u00e3o Jo\u00e3o do Mundo coloca Campina Grande, cidade no Agreste da Para\u00edba que celebra 162 anos neste domingo (11), no centro das aten\u00e7\u00f5es. Por mais de trinta dias, turistas visitam a cidade para viver a festa e conhecer o que o munic\u00edpio tem a oferecer. Durante junho e julho, os festejos juninos tomam conta de cada canto de Campina Grande, movimentando a economia local e transformando a rotina dos moradores. Mas, a rela\u00e7\u00e3o da Rainha da Borborema com a cultura vai muito al\u00e9m do m\u00eas de junho. \n\u2705 Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp\nQuando toda a estrutura do Parque do Povo \u00e9 desmontada e os turistas v\u00e3o embora, a produ\u00e7\u00e3o cultural da cidade segue seu curso. M\u00fasicos continuam se apresentando, grupos musicais mant\u00eam seus encontros, artistas produzem novos projetos e diferentes movimentos ocupam os espa\u00e7os da cidade nos outros onze meses do ano.\nS\u00e3o Jo\u00e3o de Campina Grande\nRondinelle de Paula\/Arte Produ\u00e7\u00f5es\nAo longo das d\u00e9cadas, diferentes manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas se consolidaram na hist\u00f3ria do munic\u00edpio. \u00c9 o caso do Festival de Inverno, que re\u00fane m\u00fasica, teatro, dan\u00e7a e outras linguagens em diferentes pontos da cidade, mantendo-se como uma tradi\u00e7\u00e3o no calend\u00e1rio cultural do munic\u00edpio h\u00e1 mais de 50 anos.\nEssa movimenta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua fica evidente tanto nas tradi\u00e7\u00f5es que atravessam gera\u00e7\u00f5es quanto nas novas manifesta\u00e7\u00f5es que conquistam p\u00fablicos e abrem espa\u00e7o para outros g\u00eaneros. \u00c9 a prova de que Campina Grande \u00e9 uma cidade vibrante, que transborda cultura e n\u00e3o cabe apenas nos trinta dias de festa.\n'Campina Grande t\u00e1 bonita, t\u00e1 mudada'\nMestre Duduta e Waguinho Duduta, pai e filho m\u00fasicos refer\u00eancia em chorinho\nArquivo Pessoal\/Waguinho Duduta\nWaguinho Duduta carrega consigo uma tradi\u00e7\u00e3o que existe h\u00e1 mais de setenta anos. M\u00fasico, filho de m\u00fasico e incentivador da m\u00fasica campinense, ele herdou do pai, Duduta, a rela\u00e7\u00e3o com o choro e a responsabilidade de manter essa tradi\u00e7\u00e3o viva em Campina Grande.\nWaguinho cresceu entre os m\u00fasicos que frequentavam sua casa e acompanhando de perto a roda de choro criada por Jos\u00e9 Ribeiro da Silva, o Mestre Duduta, em 1955. As reuni\u00f5es acontecem todos os domingos na casa onde o m\u00fasico morou, no bairro da Bela Vista, e re\u00fanem familiares, amigos e m\u00fasicos. Depois da morte de Mestre Duduta, em 2018, Waguinho assumiu a continuidade dos encontros.\n\"Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o da grandeza do que meu pai estava fazendo (...) No decorrer da vida, ficando adolescente, foi que comecei a realmente ir entendendo o que ele [Mestre Duduta] estava fazendo\", disse Waguinho.\nAssim como o pai, Waguinho tamb\u00e9m come\u00e7ou a dar aulas de m\u00fasica e viu pessoas que passaram pela casa de Mestre Duduta se tornarem m\u00fasicos e viverem da profiss\u00e3o. Hoje, aos 52 anos, ele mant\u00e9m uma tradi\u00e7\u00e3o que atravessa gera\u00e7\u00f5es e continua reunindo m\u00fasicos e frequentadores aos fins de semana.\nRoda de Choro de Duduta resiste h\u00e1 70 anos em Campina Grande\nArquivo Pessoal\/Waguinho Duduta\nPara o m\u00fasico, a conviv\u00eancia constru\u00edda ao redor da roda tamb\u00e9m ajuda a explicar como essa tradi\u00e7\u00e3o conseguiu atravessar diferentes momentos da cidade. Para Waguinho, a m\u00fasica se mant\u00e9m viva porque existe uma rela\u00e7\u00e3o de pertencimento entre quem toca, quem frequenta e quem aprendeu a fazer parte daquele ambiente.\n\"N\u00e3o s\u00f3 o fato de estar realmente s\u00f3 para tocar, mas aquela coisa da gente se encontrar, de brincar, de conversar, contar piada.\"\nEssa experi\u00eancia tamb\u00e9m moldou a maneira como ele v\u00ea Campina Grande. Para al\u00e9m do choro, Waguinho v\u00ea uma cidade onde diferentes manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas continuam encontrando espa\u00e7o e pessoas dispostas a produzir, ensinar e compartilhar conhecimento.\n\"\u00c9 uma cidade muito rica culturalmente, artisticamente falando. \u00c9 muita gente boa aqui, n\u00e3o s\u00f3 de m\u00fasicos, de artistas em todos os setores. De dan\u00e7a, de cinema, da arte em si, em tudo.\"\nNa vis\u00e3o do m\u00fasico, essa diversidade poderia estar ainda mais presente na programa\u00e7\u00e3o cultural da cidade. Ele defende que manifesta\u00e7\u00f5es como o choro e o samba sejam mais divulgadas e integradas aos eventos, sem que isso signifique diminuir a import\u00e2ncia do S\u00e3o Jo\u00e3o, por exemplo.\nMas, enquanto a roda de choro continuar reunindo pessoas aos fins de semana, Waguinho entende que parte dessa hist\u00f3ria permanece viva. A tradi\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou com seu pai continua sendo passada adiante por meio da m\u00fasica, das amizades e dos encontros que se repetem h\u00e1 mais de sete d\u00e9cadas.\n\"Ter uma Roda de Choro viva h\u00e1 71 anos, eu acho que \u00e9 por conta do pessoal, e de gostar realmente de m\u00fasica boa, vamos dizer assim, dos frequentadores e tudo, de amizade\", finalizou.\n'Quem vai a Campina pede pra ficar'\nA roda de choro \u00e9 uma das express\u00f5es dessa cultura que continua viva em Campina Grande, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Durante todo o ano, outros artistas, projetos e eventos tamb\u00e9m movimentam a cidade e ajudam a construir uma cena cultural que vai muito al\u00e9m do per\u00edodo junino.\nUm deles \u00e9 Augusto Arruda. Nascido na Rainha da Borborema, o artista j\u00e1 passou por diferentes palcos e projetos da cidade e tamb\u00e9m levou sua m\u00fasica para outros lugares do pa\u00eds. Para ele, ser artista em Campina \u00e9 conviver com uma produ\u00e7\u00e3o cultural que n\u00e3o se resume ao S\u00e3o Jo\u00e3o.\nAugusto Arruda no Festival de Inverno de Campina Grande\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Rondinelle De Paula\nAugusto afirma que os meses que sucedem O Maior S\u00e3o Jo\u00e3o do Mundo ajudam a revelar um outro lado da cidade: \"Os outros meses mostram que Campina Grande n\u00e3o \u00e9 apenas uma cidade que realiza um grande S\u00e3o Jo\u00e3o. \u00c9 uma cidade que produz cultura\", disse. \nO artista reconhece a import\u00e2ncia do per\u00edodo junino para Campina e para a pr\u00f3pria carreira, mas defende que a festa seja entendida como parte, e n\u00e3o como o todo, da cena cultural da cidade. \n\"O S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 uma das nossas maiores vitrines, mas ele n\u00e3o pode ser visto como o come\u00e7o e o fim da nossa produ\u00e7\u00e3o cultural. Acho que essa \u00e9 uma das coisas mais bonitas de Campina Grande: a cultura est\u00e1 presente no cotidiano\", disse. \nAo longo da carreira, Augusto participou de outros eventos que fazem parte do calend\u00e1rio cultural da cidade, como o Festival de Inverno, o bloco Foli\u00f5es do Ferro e o r\u00e9veillon de Campina Grande. Sua m\u00fasica tamb\u00e9m o levou para mais de 20 festivais pelo pa\u00eds, e ele montou ainda o projeto \"Som da Resist\u00eancia\", dedicado \u00e0 m\u00fasica negra brasileira e a temas como ancestralidade, identidade e resist\u00eancia. \nAugusto Arruda \u00e9 natural de Campina Grande\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Daliana Azevedo\nContinuar produzindo cultura na Rainha da Borborema, segundo Augusto, tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de pertencimento. N\u00e3o apenas pela exist\u00eancia de grandes eventos no calend\u00e1rio, mas pela rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda com a cidade, sua hist\u00f3ria e seu p\u00fablico. E, para quem visita a cidade fora do per\u00edodo junino, a experi\u00eancia tamb\u00e9m vai muito al\u00e9m de uma rotina associada ao S\u00e3o Jo\u00e3o. \n\"Encontrariam principalmente pessoas. Porque cultura n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 equipamento ou evento. Cultura s\u00e3o as pessoas que mant\u00eam determinadas tradi\u00e7\u00f5es vivas e tamb\u00e9m aquelas que est\u00e3o criando coisas novas\", disse. \nSegundo Augusto, s\u00e3o m\u00fasicos, atores, dan\u00e7arinos, produtores, artes\u00e3os, escritores, grupos de cultura popular e tantos outros trabalhadores que continuam produzindo mesmo quando o palco do S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 desmontado. \n\"A cultura de Campina Grande n\u00e3o termina quando o S\u00e3o Jo\u00e3o termina. Ela continua nos palcos, nos museus, nas ruas, nos ensaios, nos projetos, nos artistas e, principalmente, nas pessoas que continuam acreditando que essa cidade tem muito o que dizer.\"\n'Natural de Campina, sou Para\u00edba j\u00f3ia rara'\nThiago Pereira, o Chuck\nArquivo pessoal\/Thiago Pereira\nThiago Pereira, o Chuck, tamb\u00e9m \u00e9 nascido e criado em Campina Grande e faz parte do movimento do hip-hop da cidade. \u00c9 nas batalhas de rima e nos projetos autorais que ele vivencia de perto uma cena que ocupa diferentes espa\u00e7os na cidade e que, segundo ele, vem crescendo bastante nos \u00faltimos anos. \nPara Chuck, ser artista na Rainha da Borborema significa transformar em m\u00fasica aquilo que ele v\u00ea ao seu redor. A cidade, as tradi\u00e7\u00f5es, as refer\u00eancias nordestinas e a pr\u00f3pria hist\u00f3ria de Campina Grande est\u00e3o presentes em suas produ\u00e7\u00f5es musicais. \nEssa rela\u00e7\u00e3o fica clara no \u00e1lbum \"O Menino da Vila\", trabalho autoral em que o artista levou partes da cultura n\u00e3o s\u00f3 de Campina, mas da Para\u00edba e tamb\u00e9m do Nordeste para o rap. O projeto contou ainda com a participa\u00e7\u00e3o de Capil\u00e9, nome conhecido da m\u00fasica local e \u00fanico artista a se apresentar em todas as edi\u00e7\u00f5es d\u2019O Maior S\u00e3o Jo\u00e3o do Mundo.  \n\"Eu, como artista de Campina, Nordeste e Para\u00edba, n\u00e3o tenho como me desvincular disso. Na verdade, eu nem quero me desvincular\", afirma.\nO encontro entre o rap e outras manifesta\u00e7\u00f5es culturais da cidade, para Chuck, n\u00e3o significa substituir uma express\u00e3o por outra. Pelo contr\u00e1rio. O artista \u00e9 f\u00e3 confesso do S\u00e3o Jo\u00e3o e acredita que diferentes movimentos podem se encontrar e se fortalecer. \n\"Uma coisa n\u00e3o anula a outra. Quanto mais a gente trabalhar e talvez at\u00e9 misturar as coisas, acho que acaba fortalecendo muito\", afirma. \nO artista \u00e9 f\u00e3 do S\u00e3o Jo\u00e3o e acredita que diferentes movimentos podem se encontrar e se fortalecer.\nArquivo pessoal\/Thiago Pereira\nQuando as estruturas do S\u00e3o Jo\u00e3o s\u00e3o desmontadas, o rap segue existindo nas ruas e bairros da cidade. Batalhas de MCs re\u00fanem artistas e f\u00e3s do g\u00eanero e atuam tamb\u00e9m como espa\u00e7o para o surgimento de novos nomes na cena.\nEntre os encontros citados por Chuck est\u00e3o a Batalha das Quebradas, no A\u00e7ude Velho, a Batalha do Bacurau, no bairro Dinam\u00e9rica, e a Batalha do Pedregal. S\u00e3o diferentes pontos da cidade onde a cultura do hip-hop ganha espa\u00e7o. O artista afirma que boa parte desse movimento \u00e9 sustentada pelos pr\u00f3prios participantes. S\u00e3o eles que organizam, participam, produzem e levam outras pessoas para esses encontros. \n\u00c9 nesse movimento que Chuck enxerga tamb\u00e9m o futuro do g\u00eanero na cidade. Ele acredita que Campina Grande tem potencial para se tornar uma refer\u00eancia no hip-hop e que a profissionaliza\u00e7\u00e3o, com mais estrutura, espa\u00e7os, est\u00fadios e rela\u00e7\u00e3o entre os artistas, pode ajudar a levar os nomes que surgem na cidade para mais longe. E, para ele, essa capacidade de criar n\u00e3o surgiu agora. Est\u00e1 ligada \u00e0 pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o da Para\u00edba com a oralidade. \n\"A gente tem a poesia no nosso sangue\", diz Chuck, ao lembrar dos repentistas, poetas e poetisas que fazem parte da cultura nordestina. \nPara Chuck, o movimento que ele representa n\u00e3o surge como uma quebra com a Campina Grande conhecida por suas tradi\u00e7\u00f5es. \u00c9, na verdade, outro jeito de apresentar a mesma cidade, atrav\u00e9s das rimas e de uma gera\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m quer deixar sua marca na cena local. \nAssim, quando o Maior S\u00e3o Jo\u00e3o do Mundo acaba, parte da programa\u00e7\u00e3o cultural apenas muda de lugar e de formato, mas continua acontecendo ao longo do ano. A festa junina \u00e9 o \u00e1pice do calend\u00e1rio cultural na cidade, mas divide espa\u00e7o com outras manifesta\u00e7\u00f5es que fazem parte da rotina do munic\u00edpio. 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