{"id":70201,"date":"2026-07-26T08:03:44","date_gmt":"2026-07-26T11:03:44","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2026\/07\/26\/coco-de-roda-entenda-tradicao-que-resiste-em-aldeias-quilombos-e-periferias-da-paraiba.ghtml"},"modified":"2026-07-26T08:03:44","modified_gmt":"2026-07-26T11:03:44","slug":"coco-de-roda-entenda-tradicao-que-resiste-em-aldeias-quilombos-e-periferias-da-paraiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2026\/07\/26\/coco-de-roda-entenda-tradicao-que-resiste-em-aldeias-quilombos-e-periferias-da-paraiba\/","title":{"rendered":"Coco de roda: entenda tradi\u00e7\u00e3o que resiste em aldeias, quilombos e periferias da Para\u00edba"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/bLL8pmkFYSWPYVN2CC4vlXGr9xw=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/8\/p\/hBDBiJRNuhYgjcjdigVA\/coco-de-roda-em-itabaiana-ok.jpg\" \/><br \/>     Coco de roda em Itabaiana, na Para\u00edba, em 1938\nMiss\u00e3o  de Pesquisas Folcl\u00f3ricas de M\u00e1rio de Andrade\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo CCSP\nO Dia Nacional do Coco de Roda, da Ciranda e da Mazurca \u00e9 comemorado neste domingo (26). Na Para\u00edba, o ritmo de ra\u00edzes africanas ganhou tamb\u00e9m influ\u00eancias ind\u00edgenas e se tornou tradi\u00e7\u00e3o em periferias, territ\u00f3rios ind\u00edgenas e comunidades tradicionais. \n\u2705 Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp\nA escolha da data est\u00e1 diretamente ligada ao dia de Nossa Senhora Santana. O pesquisador, brincante e produtor cultural Z\u00e9 Silva explica que, tradicionalmente, muitos grupos s\u00f3 brincavam o coco nessa ocasi\u00e3o.\n\u201cO dia 26 de julho era o dia de Nossa Senhora Santana, e muitos grupos s\u00f3 brincavam nessa data. Em alguns lugares ainda resiste a brincadeira de Nossa Senhora Santana, como, por exemplo, em Ba\u00eda da Trai\u00e7\u00e3o, na Aldeia Laranjeiras, onde Nossa Senhora Santana \u00e9 a padroeira, e tamb\u00e9m no assentamento Dona Ant\u00f4nia, no Conde\u201d, explicou.\nDos quilombos ao terreiro \nNo litoral da Para\u00edba, o coco se desenvolveu em comunidades tradicionais, como os quilombos, onde a influ\u00eancia africana \u00e9 marcante. Segundo Silva, uma das principais caracter\u00edsticas dessa heran\u00e7a \u00e9 a umbigada, elemento de origem banto presente na dan\u00e7a.\n\u201cO coco na Para\u00edba se desenvolve no litoral, por exemplo, nos quilombos, onde voc\u00ea tem influ\u00eancia mais africana, obviamente. E a\u00ed voc\u00ea tem como caracter\u00edstica principal a umbigada, que \u00e9 de origem africana, Banto\u201d.\nAgora no g1\nJ\u00e1 nas manifesta\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, o destaque est\u00e1 na for\u00e7a das pisadas e no ritmo marcado pelos p\u00e9s. \u201cEu percebo, ent\u00e3o, assim, se for dizer qual \u00e9 a caracter\u00edstica mais forte do coco ind\u00edgena, eu digo que \u00e9 os p\u00e9s. \u00c9 a for\u00e7a com que eles rebatem os p\u00e9s\u201d, afirmou Z\u00e9 Silva.\nPara o povo Potiguara, o coco representa identidade e fortalecimento da coletividade. Todo ano, o festival Garapir\u00e1, em Ba\u00eda da Trai\u00e7\u00e3o, re\u00fane pelo menos 20 aldeias para celebrar o coco de roda. Em 2026, o evento est\u00e1 marcado para os dias 5 e 6 de setembro. \nClara Potiguara, cantora do povo Potiguara da Para\u00edba\nDivulga\u00e7\u00e3o\/Daniel Cavalheiro\nA cantora, vencedora do pr\u00eamio Shell pela trilha sonora do espet\u00e1culo \u2018Tybyra - Uma Trag\u00e9dia Ind\u00edgena Brasileira\u2019, lembra que o coco faz parte de sua vida desde a inf\u00e2ncia na aldeia S\u00e3o Francisco. \n\u201cReverencio minhas mem\u00f3rias iniciais com o coco de roda\/coco de tor\u00e9 com o meu Mestre Seu Tonh\u00f4, quando ainda vizinhos na aldeia S\u00e3o Francisco. Eu fiz algumas visitas em sua casa, conversamos e cantamos, sem espa\u00e7o para tempo ruim, com muita troca e respeito pela lideran\u00e7a\u201d, disse Clara. \nMatheus Presto, do grupo Seu Z\u00e9 Quer Coco\nDivulga\u00e7\u00e3o\/Nat\u00e1lia Di Lorenzo\nAl\u00e9m dos quilombos, aldeias e periferias, o coco de roda tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com os terreiros de religi\u00f5es afro-brasileiras, especialmente a Jurema Sagrada. \nEssa vertente se baseia na estrutura de pergunta e resposta, inspirada nos pontos cantados, e \u00e9 transmitida oralmente entre mestres e juremeiros. Matheus Presto, do grupo Seu Z\u00e9 Quer Coco, destaca que, no chamado coco de terreiro, s\u00e3o utilizados instrumentos musicais presentes na Jurema, como o marac\u00e1 e os il\u00fas (tambores). \n\"Os instrumentos que acompanham o Coco de Terreiro n\u00e3o s\u00e3o apenas percussivos, mas pertencem tamb\u00e9m \u00e0 cosmologia dos terreiros de matriz afro-ind\u00edgena. O marac\u00e1, instrumento de origem ind\u00edgena usado nos rituais da Jurema, o agb\u00ea e o il\u00fa, instrumentos ligados aos toques de matriz africana, cumprem dupla fun\u00e7\u00e3o: marcam o ritmo do coco e, ao mesmo tempo, s\u00e3o usados nos pr\u00f3prios toques lit\u00fargicos dedicados a mestres, caboclos e encantados\u201d, detalhou Matheus.\nA origem do coco de roda \nTocadores de coco na praia de Tamba\u00fa, em Jo\u00e3o Pessoa, em 1938\nMiss\u00e3o  de Pesquisas Folcl\u00f3ricas de M\u00e1rio de Andrade\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo CCSP\nUma das teorias mais conhecidas aponta que o coco surgiu no Quilombo dos Palmares, a partir do som que os africanos e negros escravizados faziam ao bater a fruta no ch\u00e3o. O pesquisador, no entanto, discorda dessa vers\u00e3o. Para Silva, a palavra \"coco\", assim como \"samba\", funciona como um guarda-chuva para diversas manifesta\u00e7\u00f5es culturais que surgiram ao mesmo tempo em v\u00e1rias localidades.\n\"Uma tradi\u00e7\u00e3o pode coexistir. Aqui nas Am\u00e9ricas, na \u00c1frica, na \u00c1sia, na Europa. Como \u00e9, por exemplo, a quest\u00e3o dos tambores\", afirma o pesquisador. Ele argumenta que as tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisam estar em di\u00e1logo direto para nascerem de uma mesma necessidade humana de express\u00e3o.\nApesar de reconhecer a forte troca cultural entre Alagoas, Pernambuco e Para\u00edba, Silva destaca que h\u00e1 pesquisas apontando semelhan\u00e7as r\u00edtmicas com outras partes do mundo. Ele cita o caso de uma etnia no Sud\u00e3o do Sul, na \u00c1frica, que toca um tambor de forma muito parecida com a batida feita na Para\u00edba.\nPara Clara Potiguara, esta mistura de influ\u00eancias africanas e ind\u00edgenas do coco de roda faz do ritmo um espa\u00e7o de acolhimento e pertencimento. \n\"Para mim, o coco \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e, sempre cabe mais um para entrar na roda, cheio de camadas hist\u00f3ricas, um canto que vem do peito, cheio de representatividade\", comentou Clara. \nMazurca \nA mazurca, tamb\u00e9m celebrada neste domingo (26), \u00e9 um ritmo considerado uma varia\u00e7\u00e3o do coco de roda. Apesar de ser comumente associada a uma tradi\u00e7\u00e3o polaca, a manifesta\u00e7\u00e3o, no Nordeste brasileiro, \u00e9 mais antiga at\u00e9 do que o pr\u00f3prio coco de roda e traz elementos tradicionais ind\u00edgenas, como afirma Z\u00e9 Silva. \n\u201cA mazurca \u00e9 um estilo de coco, que \u00e9 um coco ali do Cariri, \u00e9, e da regi\u00e3o do sert\u00e3o. A mazurca, segundo o que os mestres falam, \u00e9 muito mais antiga do que o pr\u00f3prio termo coco. Ent\u00e3o, \u00e9 como se a mazuca fosse at\u00e9 uma irm\u00e3 mais velha do coco, e todo mundo fala que a mazuca \u00e9 ind\u00edgena: n\u00e3o existem instrumentos, \u00e9 s\u00f3 batida de p\u00e9s e palmas de m\u00e3o\u201d, explicou. \nApesar de o nome fazer refer\u00eancia a uma dan\u00e7a de origem polonesa, o pesquisador afirma que a mazurca paraibana \u00e9 diferente da tradi\u00e7\u00e3o europeia. Segundo ele, a manifesta\u00e7\u00e3o praticada no estado tem origem ind\u00edgena e o nome pode ter sido adotado para ocultar essa identidade ao longo da hist\u00f3ria.\n\"N\u00e3o faz o m\u00ednimo sentido a mazurca que existe no Brasil com essa mazurca polonesa. A minha teoria \u00e9 que, assim como a capoeira e a Jurema Sagrada, ela teve que se ocultar. Acredito fortemente que tinha outro nome entre os povos ind\u00edgenas, porque o que se chama de mazurca na Para\u00edba \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Todos os mestres falam isso\", afirmou. \nV\u00eddeos mais assistidos do g1 Para\u00edba  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>        Coco de roda em Itabaiana, na Para\u00edba, em 1938<br \/>\nMiss\u00e3o  de Pesquisas Folcl\u00f3ricas de M\u00e1rio de Andrade\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo CCSP<br \/>\nO Dia Nacional do Coco de Roda, da Ciranda e da Mazurca \u00e9 comemorado neste domingo (26). 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