{"id":68324,"date":"2026-06-29T12:16:21","date_gmt":"2026-06-29T15:16:21","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2026\/06\/29\/primeiro-homem-trans-a-ter-um-filho-na-rede-publica-da-pb-fala-sobre-desafios-da-gestacao-disforia.ghtml"},"modified":"2026-06-29T12:16:21","modified_gmt":"2026-06-29T15:16:21","slug":"primeiro-homem-trans-a-ter-um-filho-na-rede-publica-da-pb-fala-sobre-desafios-da-gestacao-nao-conseguia-sair-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2026\/06\/29\/primeiro-homem-trans-a-ter-um-filho-na-rede-publica-da-pb-fala-sobre-desafios-da-gestacao-nao-conseguia-sair-de-casa\/","title":{"rendered":"Primeiro homem trans a ter um filho na rede p\u00fablica da PB fala sobre desafios da gesta\u00e7\u00e3o: &#8216;N\u00e3o conseguia sair de casa&#8217;"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/3vOlVzjPd2qF6icZdXnHLHlb1gI=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/O\/Y\/cT7XdMTZSEwwVdwxbUfQ\/5d7e33bd-6b07-4da7-8f69-8c1649141406.jpeg\" \/><br \/>     Homem trans d\u00e1 \u00e0 luz primeiro beb\u00ea na rede p\u00fablica estadual da PB\nO primeiro homem trans a ter um filho na rede p\u00fablica estadual da Para\u00edba, Daniel Valentim, enfrentou muitos desafios relacionados \u00e0 disforia de g\u00eanero durante o processo. Para gerar a pequena Iara, ele e a esposa, Gisele Castro, que tamb\u00e9m \u00e9 transsexual, precisaram interromper a terapia hormonal. \nEle, que \u00e9 estudante de agronomia, e a esposa, que \u00e9 professora universit\u00e1ria e veterin\u00e1ria, moram em Esperan\u00e7a, no Agreste, mas a beb\u00ea nasceu no Hospital da Mulher, em Jo\u00e3o Pessoa. \nDaniel Valentim teve um diagn\u00f3stico de trombose e, por isso, a gesta\u00e7\u00e3o foi considerada de risco. No entanto, ele relata que, al\u00e9m desse desafio relacionado \u00e0 sa\u00fade, a quest\u00e3o da disforia e tamb\u00e9m dos olhares das pessoas tornaram o processo muito mais dif\u00edcil.\n\u201cEu n\u00e3o conseguia me olhar no espelho porque eu via meu quadril mais largo, a barriga crescendo. Mesmo sendo mastectomizado, o meu peito cresceu, inclusive vou ter que refazer essa cirurgia, porque cresceu bastante, e chegou o momento da situa\u00e7\u00e3o em que a barriga estava grande e eu n\u00e3o conseguia mais sair de casa pelos olhares\u201d, disse o estudante de agronomia. \nPor causa da gesta\u00e7\u00e3o e da interrup\u00e7\u00e3o dos horm\u00f4nios, algumas caracter\u00edsticas f\u00edsicas come\u00e7am a mudar, o que provocou disforia de g\u00eanero. A condi\u00e7\u00e3o \u00e9 caracterizada pelo sofrimento ou desconforto causado pela incompatibilidade entre a identidade de g\u00eanero da pessoa e caracter\u00edsticas f\u00edsicas associadas ao sexo atribu\u00eddo no nascimento. Daniel relata que encontrava for\u00e7as ao lembrar que tudo era pela filha que logo nasceria. \n\u201cQuando eu olhava para o meu corpo, que eu via o quadril alargando, o peito crescendo, eu olhava para a barriga e fazia assim: \u2018\u00e9 pela minha filha, isso vai passar, depois eu resolvo isso\u2019. Ent\u00e3o, at\u00e9 me emociono quando eu falo essas coisas\u201d. \nA m\u00e3e da beb\u00ea, Gisele Castro, tamb\u00e9m precisou interromper os horm\u00f4nios, ap\u00f3s mais de 15 anos de tratamento. \u201cO sistema reprodutor se modifica ap\u00f3s a utiliza\u00e7\u00e3o dos horm\u00f4nios, mas essa modifica\u00e7\u00e3o pode ser revertida a partir de um acompanhamento m\u00e9dico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter\", explicou.\nDaniel tamb\u00e9m relata que enfrentou situa\u00e7\u00f5es de estranhamento durante a gesta\u00e7\u00e3o. Segundo ele, olhares de curiosidade e preconceito em espa\u00e7os p\u00fablicos marcaram esse per\u00edodo e evidenciaram os desafios vividos por um homem trans gestante.\n\u201cEu me recordo de uma situa\u00e7\u00e3o em que eu fui comprar p\u00e3o e a barriga j\u00e1 estava bem aparente. E a\u00ed a mo\u00e7a da padaria olhou para mim, olhou para a barriga e fez um olhar bem assim estranho. Isso me atravessou de uma forma grande\u201d. \nLEIA TAMB\u00c9M: \n'Fam\u00edlia tem a ver com amor e respeito', diz esposa de homem trans que deu \u00e0 luz pela primeira vez em hospital estadual da Para\u00edba\nPrimeira tentativa \nO casal tentou engravidar em 2022. Por\u00e9m, a mudan\u00e7a das caracter\u00edsticas f\u00edsicas por causa da interrup\u00e7\u00e3o dos horm\u00f4nios trouxe a disforia de g\u00eanero, o que fez com que ambos retomassem o tratamento e adiassem o sonho. \n\u201cEu n\u00e3o aguentava mais por conta da disforia. Minha barba tinha ca\u00eddo, j\u00e1 n\u00e3o tinha quase nenhum pelo no rosto. Ent\u00e3o, meu peito crescia, meu quadril ficou mais largo, minha cintura mais fina, e isso me incomodava muito. Eu me sentia como antes da transi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguia me olhar no espelho e reconhecer que meu corpo refletia quem eu sou por dentro. E Gisele, a mesma coisa: os pelos voltaram a crescer nela, o rosto dela ficou menos feminilizado\u201d. \nGravidez e parto \nGisele e Daniel na hora do parto\nDivulga\u00e7\u00e3o\/Governo da Para\u00edba\nEm 2025, o casal conseguiu engravidar. A m\u00e3e, Gisele, conta que n\u00e3o esperava que o marido conseguisse engravidar t\u00e3o r\u00e1pido. \n\"A gente combinou de fazer o exame de urina juntos. S\u00f3 que a\u00ed teve um dia em que o Daniel, com a ansiedade muito alta, foi \u00e0 farm\u00e1cia e fez. Eu estava trabalhando, ele fez, e a\u00ed deu positivo. A\u00ed ele pegou, comprou uma fralda, embrulhou a fralda como um presente, colou o exame de urina e fez uma surpresa, falou que tinha um presente para mim. Quando eu abri, era uma fralda e o exame positivo. Ent\u00e3o, foi uma emo\u00e7\u00e3o muito grande. Eu n\u00e3o esperava que ele fosse engravidar t\u00e3o cedo\". \nDaniel Valentim come\u00e7ou a fazer o pr\u00e9-natal em Campina Grande, mas a busca por um ambiente mais seguro levou o casal a pesquisar outras op\u00e7\u00f5es e encontrar o Hospital da Mulher, em Jo\u00e3o Pessoa, onde Iara nasceu em junho de 2026.  \nEles descobriram que a unidade realizava cirurgias de mastectomia em homens trans. Isso indicava que os profissionais da unidade j\u00e1 eram treinados para o acolhimento desse p\u00fablico. O depoimento positivo de uma amiga referendou a escolha pela maternidade, inaugurada h\u00e1 pouco mais de um ano.\nCom a ajuda do Ambulat\u00f3rio de Sa\u00fade Integral para Travestis e Transexuais (Ambulat\u00f3rio TT) Fernanda Benvenutty, em Jo\u00e3o Pessoa, o casal conseguiu uma vaga e transferiu o pr\u00e9-natal para o Hospital da Mulher no oitavo m\u00eas de gesta\u00e7\u00e3o.\n\"Apesar de ter tido um pr\u00e9-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, n\u00e3o apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a seguran\u00e7a com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer\u201d, afirmou o pai de Iara. \nOutros modelos de fam\u00edlia \nDaniel e Gisele durante gesta\u00e7\u00e3o\nGisele Castro\/Arquivo pessoal\nPara Gisele, contar a hist\u00f3ria da fam\u00edlia ajuda a mostrar que casais LGBTQIAP+ podem oferecer um ambiente saud\u00e1vel para criar um filho, ambientes esses que nem sempre s\u00e3o oferecidos por fam\u00edlias heteronormativas. Segundo ela, o respeito, o amor e o cuidado s\u00e3o mais importantes do que a configura\u00e7\u00e3o familiar.\n\"Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, voc\u00ea tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem viol\u00eancia, que tem trai\u00e7\u00e3o, que tem v\u00e1rias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da uni\u00e3o e do respeito. E que a gente quer mostrar que n\u00e3o precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma fam\u00edlia.\"\nV\u00eddeos mais assistidos do g1 Para\u00edba  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>        Homem trans d\u00e1 \u00e0 luz primeiro beb\u00ea na rede p\u00fablica estadual da PB<br \/>\nO primeiro homem trans a ter um filho na rede p\u00fablica estadual da Para\u00edba, Daniel Valentim, enfrentou muitos desafios relacionados \u00e0 disforia de g\u00eanero durante o processo. 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