{"id":66550,"date":"2026-05-31T07:00:56","date_gmt":"2026-05-31T10:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/sao-joao\/noticia\/2026\/05\/31\/reinvencao-da-sanfona-abre-caminhos-para-o-futuro-do-instrumento.ghtml"},"modified":"2026-05-31T07:00:56","modified_gmt":"2026-05-31T10:00:56","slug":"dos-oito-baixos-aos-palcos-reinvencao-da-sanfona-abre-caminhos-para-o-futuro-do-instrumento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2026\/05\/31\/dos-oito-baixos-aos-palcos-reinvencao-da-sanfona-abre-caminhos-para-o-futuro-do-instrumento\/","title":{"rendered":"Dos oito baixos aos palcos: reinven\u00e7\u00e3o da sanfona abre caminhos para o futuro do instrumento"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/NVrSOu4ylBZzw0pliRnEG-3U92g=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2026\/f\/3\/iAPEAHQDKANKHCWuofVQ\/luizinho-e-familia.jpeg\" \/><br \/>     Luizinho Calixto com o neto e o filho, Thiago Calixto. O legado do pai segue firme no livro \u201cPuxando o fole: a sanfona de 8 baixos e a alma do Nordeste\u201d, de autoria dele. Obra que deve ser lan\u00e7ada ainda este ano. Tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es ligadas pelo som do fole, respeito e mem\u00f3ria\nRoxanny Fotografia \/  Reprodu\u00e7\u00e3o Instagram\nAs primeiras mem\u00f3rias musicais do paraibano Luizinho Calixto, refer\u00eancia do fole de 8 baixos, n\u00e3o come\u00e7am no palco, mas sim na cozinha. Era ali que dona Maria mudava o ritmo do dia cantando m\u00fasicas antigas enquanto cuidava da rotina da fam\u00edlia. E com o olhar atento de m\u00e3e, percebeu cedo a admira\u00e7\u00e3o do filho pela sanfona.\n\u2705 Clique aqui para se inscrever no canal do g1 PB no WhatsApp\nChamou o mais velho, Z\u00e9 Calixto, j\u00e1 respeitado no oito baixos, e insistiu que o menino Luizinho tamb\u00e9m tinha jeito para a coisa. Pouco tempo depois, a sanfona j\u00e1 ocupava espa\u00e7o nas m\u00e3os pequenas da crian\u00e7a. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, aos oito (anos, n\u00e3o baixos), veio a primeira apresenta\u00e7\u00e3o do garoto Luizinho, em uma r\u00e1dio de Campina Grande. \nLEIA TAMB\u00c9M: \nEntenda como a sanfona movimenta empregos, tradi\u00e7\u00e3o e renda na Para\u00edba\nNo meio dos adultos, t\u00edmido e ao mesmo tempo inquieto, como qualquer crian\u00e7a diante de tanta gente, Luizinho Calixto ainda n\u00e3o imaginava que aquele instrumento contaria a hist\u00f3ria de vida, sobreviv\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria fam\u00edlia. Cresceu tocando e, aos poucos, tornou-se, junto \u00e0 fam\u00edlia Calixto, um dos principais respons\u00e1veis por levar o fole de 8 baixos para o mundo: \n\u201cFoi dif\u00edcil, sim. Mais dif\u00edcil ainda \u00e9 segurar essa populariza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande, n\u00e9? Quase n\u00e3o temos instrumentistas de 8 baixos, \u00e9 uma defasagem muito grande\u201d, desabafa. \nAntes de fazer hist\u00f3ria nas m\u00e3os do garoto, o fole roncava nos bra\u00e7os do pai. Jo\u00e3o de Deus, seu \u201cDideus\u201d, respeitado pelo jeito firme e pela habilidade com a sanfona. Tocava em festas, encontros e at\u00e9 para homens do canga\u00e7o, em uma \u00e9poca em que a m\u00fasica levava al\u00edvio aos caminhos mais duros do Nordeste. \nFoi nesse ambiente que Luizinho cresceu: aprendendo sem caderno, sem partitura e sem professor. O ensino acontecia no ouvido, na observa\u00e7\u00e3o e na repeti\u00e7\u00e3o di\u00e1ria dentro de casa. D\u00e9cadas depois, a vida colocou o sanfoneiro, at\u00e9 ent\u00e3o, improv\u00e1vel: ensinar o que ele aprendeu sem escola. \n\u201cEu consegui criar o primeiro manual para tocar fole de 8 baixos em uma afina\u00e7\u00e3o que nem existia. Criei um m\u00e9todo e levei esse m\u00e9todo para a Espanha, \u00c1frica, Su\u00ed\u00e7a, Argentina, Espanha\u2026 tudo isso para mostrar a outros povos, outras culturas, uma afina\u00e7\u00e3o que \u00e9 nossa e que \u00e9 \u00fanica\", disse Luizinho Calixto.\nLuizinho Calixto criou um m\u00e9todo b\u00e1sico para aprender o fole de 8 baixos\nAmana Midiaa \/ Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\nEm 2012, quando Luizinho morava em Fortaleza, um convite veio direto de Campina Grande: ministrar uma oficina de 8 baixos, divulgar uma cartilha que ele criou em detalhes, um m\u00e9todo b\u00e1sico que, segundo o pr\u00f3prio, nem existia. \nE foi assim que, na Universidade Estadual da Para\u00edba, Luizinho Calixto formou novos sanfoneiros de 8 baixos; Instrumento que, pelas m\u00e3os e olhar do m\u00fasico, passou pela inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e impulsionou novos mercados. \nO ent\u00e3o pr\u00f3-reitor da UEPB, tamb\u00e9m m\u00fasico e poeta, Rangel J\u00fanior, foi quem, atrav\u00e9s do convite, fez Luizinho voltar para a Para\u00edba com a fam\u00edlia e se dedicar ao curso: \n\u201cFole de 8 baixos com afina\u00e7\u00e3o nordestina\u2026 ele me perguntou se eu conseguia imprimir a cartilha. Foi feita uma tiragem, ele foi contratado e terminou que deu certo, ele foi repatriado. Crian\u00e7as, adultos e idosos aprenderam com ele. Uma contribui\u00e7\u00e3o imensa para a nossa cultura\u201d, lembra Rangel. \nDiferente da sanfona mais conhecida do p\u00fablico, a de 8 baixos carrega outra l\u00f3gica, outro som e outra forma de tocar. O instrumento \u00e9 menor, mais limitado em recursos e mais desafiador tecnicamente, o que exige de quem toca um dom\u00ednio quase artesanal. \nUma sanfona diferente e outros ritmos \nCada abertura do fole muda as notas e o som sai diferente quando o ar volta. Possibilidades que permitem aos adeptos do instrumento \u2018passear\u2019 por outros ritmos. Bossa Nova, bolero, tango, valsa, entre outros, s\u00e3o apenas alguns dos ritmos que saem do fole de Calixto.\nEspa\u00e7o aberto para que o instrumento fosse muito al\u00e9m do forr\u00f3 e chegasse at\u00e9 ao frevo. No palco de Alceu Valen\u00e7a, por exemplo, a sanfona \u00e9 muito bem-vinda e ganhou at\u00e9 outra velocidade, dialogando com metais, bateri e muita energia.\nQuem entrega esse presente ao p\u00fablico \u00e9 o sanfoneiro pernambucano Andr\u00e9 Juli\u00e3o, parceiro de palco de Alceu, na banda de p\u00edfanos el\u00e9trica do artista. \n\"Conheci Alceu Valen\u00e7a no Som Brasil, da Rede Globo. Ele me viu tocando e me chamou\u2026 pra atuar. Eu disse que n\u00e3o era ator, ele disse que sabia e que eu ia me encaixar no filme mesmo assim. Fiquei feliz n\u00e3o, me amostrei\u201d, conta. \nEsse foi o primeiro contato. Depois, Juli\u00e3o foi chamado para a banda, onde segue carreira at\u00e9 hoje. Reconhece o cach\u00ea melhor dos dias atuais, mas lembra que nem sempre as coisas foram f\u00e1ceis: Tem o investimento na pr\u00f3pria sanfona, que pode chegar a mais de cinquenta mil reais (quando n\u00e3o s\u00e3o as mais raras, que podem chegar a mais de cem mil reais), al\u00e9m dos custos com manuten\u00e7\u00e3o, transporte e at\u00e9 a seguran\u00e7a do instrumento. Al\u00e9m disso, o instrumento, em si, pode chegar a 15 kg, o que exige do m\u00fasico at\u00e9 preparo f\u00edsico. \nJuli\u00e3o levou a sanfona ao frevo de Alceu Valen\u00e7a, com quem divide os palcos\nJefferson Tetto \/ Reprodu\u00e7\u00e3o Instagram\nUm malabarismo constante entre os altos custos e, na maioria das vezes, a baixa valoriza\u00e7\u00e3o do mercado. E por entre os instrumentos caros e cach\u00eas que minguam, mesmo em redutos tradicionais, como Campina Grande, existem, ainda, as mulheres sanfoneiras. \nAs dificuldades para as mulheres na sanfona \nEm um universo historicamente marcado por homens, muitas mulheres que vivem do instrumento precisam enfrentar a instabilidade financeira, o preconceito e a disputa por reconhecimento, ainda distante dos palcos e da proje\u00e7\u00e3o nacional. \nUm cen\u00e1rio que Ana Paula da Silva se enxerga bem. Aos 45 anos, ela carrega mais de duas d\u00e9cadas de rela\u00e7\u00e3o com a sanfona. S\u00e3o 26 anos na busca por transformar a m\u00fasica em perman\u00eancia, profiss\u00e3o em sustento, em um mercado que, segundo ela, oferece menos espa\u00e7o para as mulheres. \n\"O tratamento \u00e9 diferente, sim. Mulheres na sanfona, na zabumba, tri\u00e2ngulo, n\u00e3o \u00e9 algo comum. Tem muito preconceito por parte de homens e mulheres. Acham que a gente n\u00e3o toca forr\u00f3 p\u00e9 de serra igual aos homens, s\u00f3 que a gente toca melhor. \u00c9 mais bonito e mais charmoso\u201d, diz. \nUma fala que, para muitos, pode soar provocativa; para a sanfoneira, \u00e9 um desabafo de quem faz a economia girar de forma quase invis\u00edvel. \nInvisibilidade essa que \u00e9 incompat\u00edvel com os n\u00fameros: Dados do Sebrae, referentes a 2025, apontam crescimento da presen\u00e7a feminina na economia criativa e no empreendedorismo brasileiro, especialmente em \u00e1reas ligadas \u00e0 cultura, produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e servi\u00e7os criativos. \nNa Para\u00edba, j\u00e1 s\u00e3o cerca de 160 mil mulheres empreendedoras, muitas delas atuando justamente em setores criativos e de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Elas representam 35% dos empreendedores paraibanos. \nMais da metade dessas mulheres \u00e9 chefe de fam\u00edlia: 53,6%. Por outro lado, os dados tamb\u00e9m revelam que 70,5% das empreendedoras paraibanas ainda atuam na informalidade. Mais de 50% dessas mulheres relatam j\u00e1 ter sofrido preconceito no mercado pelo simples fato de serem mulheres.\nN\u00fameros que mostram um avan\u00e7o, mas preocupam quando se fala em sobrecarga e desigualdade. Ao mesmo tempo em que as mulheres ampliam presen\u00e7a no empreendedorismo criativo, esbarram em uma realidade financeiramente inst\u00e1vel. \n\u201cA gente vive em luta constante para ser reconhecida. At\u00e9 a m\u00fasica que tocamos, tamb\u00e9m. O forr\u00f3 p\u00e9-de-serra n\u00e3o \u00e9 valorizado. A\u00ed vem manuten\u00e7\u00e3o da sanfona, figurino\u2026 Um investimento alto para ganhar pouco\", disse.\nSanfoneira mirim, Antonella Brasileiro tem apenas dez anos e j\u00e1 sustenta nos bra\u00e7os e nos palcos a responsabilidade de uma sanfona. O primeiro instrumento foi um de brinquedo, dado de presente pelo av\u00f4, quando ela era ainda mais jovem, aos seis anos de idade. Ela n\u00e3o gostou e cobrou seriedade. Queria uma sanfona de verdade. \nO pai, Silvio Brasileiro, achou melhor levar a filha para uma aula de sanfona, antes de investir em um instrumento. Na \u00e9poca, o professor foi incisivo e disse que a menina levava muito jeito para a coisa. \n\u201cEla super empolgada nessas aulas, a\u00ed tive que comprar uma sanfona pra ela de 48 baixos, a\u00ed foi s\u00f3 o foguete subindo. Depois investi em uma sanfona profissional de 120 baixos\u201d, conta o pai. \nTalento que j\u00e1 estava no sangue. \u201cDescobri que temos parentesco com Sivuca, o meu av\u00f4 era primo dele e era m\u00fasico da Pol\u00edcia Militar\u201d, complementa. \nSendo o presente da sanfona, artistas que j\u00e1 vem de longe e os que chegam agora enxergam mesmo um futuro inteiro pela frente. Vida longa ao instrumento, reconhecimento e oportunidades de empreender em torno de uma arte que atravessa gera\u00e7\u00f5es sem perder a capacidade de se reinventar. E Antonella j\u00e1 enxerga esse roteiro muito bem escrito: \n\u201cComo eu imagino o meu futuro? Conhecendo muitos artistas, viajando pelo mundo todo\u2026 eu j\u00e1 sei que vou ser famosa, porque eu nunca desisto. Eu quero levar minha cultura para o mundo todo, pra todo mundo conhecer o que \u00e9 Nordeste, o que \u00e9 S\u00e3o Jo\u00e3o e o que \u00e9 forr\u00f3.\u201d\nAntonella Brasileiro ganhou a primeira sanfona aos seis anos de idade\nFoto: Arquivo Pessoal\nV\u00eddeos mais assistidos do g1 Para\u00edba  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>        Luizinho Calixto com o neto e o filho, Thiago Calixto. O legado do pai segue firme no livro \u201cPuxando o fole: a sanfona de 8 baixos e a alma do Nordeste\u201d, de autoria dele. Obra que deve ser lan\u00e7ada ainda este ano. 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