{"id":66485,"date":"2026-05-30T06:01:03","date_gmt":"2026-05-30T09:01:03","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2026\/05\/30\/do-fole-ao-sustento-entenda-como-a-sanfona-movimenta-empregos-tradicao-e-renda-na-paraiba.ghtml"},"modified":"2026-05-30T06:01:03","modified_gmt":"2026-05-30T09:01:03","slug":"do-fole-ao-sustento-entenda-como-a-sanfona-movimenta-empregos-tradicao-e-renda-na-paraiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2026\/05\/30\/do-fole-ao-sustento-entenda-como-a-sanfona-movimenta-empregos-tradicao-e-renda-na-paraiba\/","title":{"rendered":"Do fole ao sustento: entenda como a sanfona movimenta empregos, tradi\u00e7\u00e3o e renda na Para\u00edba"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/3kfCoYwkRAwbfgS02LRH9FZm2BY=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2024\/0\/s\/yqZPJcTzalBw2h6C76wA\/aa.jpg\" \/><br \/>     Sanfonas\nTV Clube\nAos 98 anos, o compositor, m\u00fasico e poeta pernambucano, Onildo Almeida, relembra e ainda canta com carinho a m\u00fasica Hora do Adeus, eternizada por Luiz Gonzaga e escrita por Onildo, em parceria com Luiz Queiroga. O Rei do Bai\u00e3o, amigo pr\u00f3ximo de Onildo, pediu para que ele escrevesse uma m\u00fasica que representasse o fim da carreira. \n\u201cEle [Luiz Gonzaga] sentia que o tempo dele na m\u00fasica tinha chegado ao fim\u201d, conta. \n\u2705 Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp\nO resto dessa hist\u00f3ria a gente j\u00e1 sabe. O \"adeus\" nunca aconteceu, de fato. A m\u00fasica foi gravada em 1967 e, naquela \u00e9poca, Gonzag\u00e3o se viu perdendo espa\u00e7o na ind\u00fastria musical, sendo \"ofuscado\" pela Jovem Guarda, Bossa Nova e MPB. O artista s\u00f3 veio a falecer em 1989 e as m\u00fasicas por ele gravadas entraram para a hist\u00f3ria e desenharam muito do que viria a ser o forr\u00f3 e a for\u00e7a desse ritmo como identidade cultural nordestina. \nOnildo Almeida e Luiz Gonzaga\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\nE junto das voz rasgada e das letras que narram o sert\u00e3o, havia outro personagem imposs\u00edvel de ignorar: a sanfona de Gonzag\u00e3o. N\u00e3o se tratava apenas de um instrumento pesado \"pendurado\" no peito; era quase uma extens\u00e3o do corpo. Quando Luiz Gonzaga entrava no palco, a sanfona parecia respirar com ele. \nO fole abria e fechava como quem puxava os ventos quentes do Nordeste para dentro da m\u00fasica. Do instrumento, sa\u00edam sons que lembravam o aboio distante do vaqueiro, o ranger da seca, a festa da feira\u2026 tudo, em notas musicais. \nPara seu Onildo, a sanfona, entrela\u00e7ada \u00e0 personalidade sonora do Rei do Bai\u00e3o, fez com que Hora do Adeus nunca conseguisse cumprir a promessa do t\u00edtulo. Pelo contr\u00e1rio: toda uma cadeia produtiva foi criada entorno da sanfona. A partir dela, nasceram f\u00e1bricas, oficinas, afinadores, luthiers, artes\u00e3os, vendedores, e, claro, m\u00fasicos. O instrumento passou a ser, al\u00e9m de identidade, heran\u00e7a e sustento.\n\u201cFoi Gonzag\u00e3o quem levou essa musicalidade para o sul do pa\u00eds. Quem transformou a sanfona nordestina em disco, mercado e identidade popular. E quando o Nordeste se ouviu tocando nas vitrolas do Brasil, algo incr\u00edvel aconteceu. Outros m\u00fasicos surgiram, novos sanfoneiros apareceram\", disse Onildo Almeida.                                               \nAgora no g1\nQuem bebe dessa fonte \u00e9 Francismar de Souza, o professor Caju, como \u00e9 conhecido pelos alunos o sanfoneiro pessoense. Em um ateli\u00ea pr\u00f3prio, localizado em Jo\u00e3o Pessoa, Caju tamb\u00e9m faz manuten\u00e7\u00e3o de sanfonas. Um luthier, como \u00e9 chamado quem se dedica a construir e restaurar instrumentos musicais. \nA influ\u00eancia familiar em Monteiro, no Cariri paraibano e o per\u00edodo em que viveu no Paran\u00e1, ainda na adolesc\u00eancia, despertaram a paix\u00e3o pela sanfona Nordestina. Primeiro, pela proximidade com o forr\u00f3 aut\u00eantico; depois, pela dist\u00e2ncia. \n\u201cQuando fui morar no Paran\u00e1 com a minha fam\u00edlia, fiquei com saudades do Nordeste e o gosto pela sanfona me reaproximou das minhas ra\u00edzes\u201d, relembra. De volta \u00e0 Para\u00edba, aprendeu a tocar. \nDesenvolveu o talento e, hoje, tem o instrumento como principal fonte de renda. Atualmente, gerencia uma escola de m\u00fasica com cerca de 50 alunos. Na pandemia da Covid-19, superou os desafios das aulas online e, at\u00e9 hoje, ensina alunos de diversos lugares do Brasil. Gente que quer aprender a tocar sanfona do zero ou aperfei\u00e7oar as habilidades que j\u00e1 tem. \nFormalizou o neg\u00f3cio como microempresa. Com muita luta, fez da sanfona um sustento, mas ainda sente que falta forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e incentivos para a manuten\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento do instrumento no pa\u00eds.\n\u201cA gente n\u00e3o tem, por exemplo, forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe um curso aqui no Brasil pra formar profissionais que fazem manuten\u00e7\u00e3o de sanfonas. \u00c9 muito espec\u00edfico, \u00e9 um artes\u00e3o, praticamente\", comentou Francismar de Souza, o \u201cCaju\u201d.\nProfessor Caju afina sanfonas no ateli\u00ea pr\u00f3prio, em Jo\u00e3o Pessoa\nMayara Medeiros\/CBN Para\u00edba\nEm Campina Grande, o m\u00fasico, poeta e sanfoneiro Amazan, tamb\u00e9m percebeu essa lacuna. H\u00e1 mais de vinte anos, quando j\u00e1 estava na estrada levando forr\u00f3 para muita gente com uma sanfona que ele mesmo descreve como \u201cvelhinha\u201d, precisou de ajuda para manter o instrumento funcional e afinado, mas n\u00e3o encontrou ningu\u00e9m que fizesse o servi\u00e7o. \nFoi a\u00ed que ele resolveu se aventurar: abriu o instrumento, mexeu para l\u00e1, desmontou para c\u00e1\u2026 e aprendeu, sozinho, a deixar o fole potente para o pr\u00f3ximo show.  \n\u201cA\u00ed meus amigos sanfoneiros passaram a pedir a minha ajuda, at\u00e9 que um deles disse: rapaz, tu deveria abrir uma f\u00e1brica de sanfona, \u00e9 dif\u00edcil demais achar quem fa\u00e7a o que tu faz\u201d, conta Amazan. \nDepois do conselho, n\u00e3o teve outra: poucos dias depois, o m\u00fasico, mesmo com poucos recursos, resolveu colocar a ideia para a frente. Se organizou financeiramente e foi parar na It\u00e1lia, refer\u00eancia mundial na fabrica\u00e7\u00e3o de sanfonas. \nA inten\u00e7\u00e3o era aprender, de perto, o processo de produ\u00e7\u00e3o e montagem do instrumento, pe\u00e7a por pe\u00e7a para, assim, trazer o conhecimento t\u00e9cnico para a Para\u00edba. Um projeto que, por ser pioneiro, passou a conquistar a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, no in\u00edcio dos anos 2000. \u00c9poca que coincidiu com a explos\u00e3o comercial de um novo \u2018modelo\u2019 de forr\u00f3: o eletr\u00f4nico ou \u201cforr\u00f3 estilizado.\u201d \n\u201cComecei em 2003, num cantinho mais acanhado. Depois, fui fazendo uma amplia\u00e7\u00e3o em um galp\u00e3o que eu tinha e, de repente, cresceu tanto a demanda, que implantei a f\u00e1brica\", contou Amazan.\nAmazan: do conserto de sanfonas em um galp\u00e3o \u00e0 uma f\u00e1brica de instrumentos\nArquivo Pessoal\nCom mais experi\u00eancia, Amazan resolveu inovar. Ele explica que implementou uma afina\u00e7\u00e3o diferenciada na sanfona, mais \u201canasalada\u201d e com um som mais \u201caveludado\u201d, pois esse, segundo ele, \u00e9 o padr\u00e3o de sonoridade preferido do p\u00fablico nordestino. \nAl\u00e9m disso, Amazan criou um sistema de caixinha externa para a bateria da sanfona; antes, ela ficava dentro do instrumento, o que exigia do m\u00fasico desparafusar e abrir a tampa (como um cap\u00f4 de carro) para troc\u00e1-la durante um show. Com a inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica na eletrifica\u00e7\u00e3o, a troca passou a ser feita em apenas 15 segundos, atrav\u00e9s de uma gaveta externa no lado esquerdo, facilitando a manuten\u00e7\u00e3o r\u00e1pida durante as performances. \nMas, para tocar esses novos projetos, o empreendimento busca, at\u00e9 hoje, profissionalizar a produ\u00e7\u00e3o, gerar empregos e manter viva a ess\u00eancia artesanal do instrumento. Movimento que n\u00e3o aconteceu por acaso e contou, ainda nos primeiros passos, com o apoio de iniciativas voltadas ao fortalecimento do pequeno empreendedor, \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o e ao desenvolvimento de neg\u00f3cios ligados \u00e0 economia criativa do Nordeste.\nDiretor de opera\u00e7\u00f5es da f\u00e1brica de sanfonas, Marckezan Azevedo lembra bem que buscou consultorias do SEBRAE Para\u00edba para estruturar o funcionamento do neg\u00f3cio: planejamento financeiro, processos produtivos e, principalmente, formaliza\u00e7\u00e3o. Suporte que ajudou toda a equipe a expandir o neg\u00f3cio e se tornar refer\u00eancia no pa\u00eds. \n\u201cEm quase 25 anos de hist\u00f3ria, impactamos diretamente na renda familiar de dezenas de fam\u00edlias. Esses profissionais, em maioria, nunca tinham tido contato algum com a sanfonas, ou seja, n\u00e3o sabiam nada sobre t\u00e9cnicas ou sobre o of\u00edcio de construir o instrumento\u201d, relata Marckezan.\nSarayva Azevedo tem 54 anos e \u00e9 afinador na f\u00e1brica de Amazan desde 2012. N\u00e3o era experiente. Hoje, \u00e9 um especialista. Ouvido apurado para identificar os m\u00ednimos desalinhamentos no som, ajustar palhetas e devolver equil\u00edbrio ao fole de cada instrumento. Um trabalho artesanal, feito nota por nota. \u201c\u00c9 a minha fonte de renda, \u00e9 assim que sustento a minha fam\u00edlia\u201d, conta. \nO professor, o afinador, o luthier, o fabricante. Atividades diferentes, mas conectadas por uma mesma l\u00f3gica produtiva ligada \u00e0 m\u00fasica e \u00e0 cultura nordestina. Um setor da chamada \u2018Economia Criativa\u201d, que transforma conhecimento, tradi\u00e7\u00e3o e identidade cultural em gera\u00e7\u00e3o de empregos. Neg\u00f3cios que se desenvolvem com criatividade, inova\u00e7\u00e3o, tecnologia e tecnologia, para agregar valor a produtos e servi\u00e7os. \nSegundo um mapeamento da Ind\u00fastria Criativa da Firjan, que re\u00fane dados da Rela\u00e7\u00e3o Anual de Informa\u00e7\u00f5es Sociais e do Minist\u00e9rio do Trabalho, a economia criativa brasileira movimentou mais de 393 bilh\u00f5es de reais em 2023, o equivalente a 3,59% de tudo o que o pa\u00eds produziu naquele ano. N\u00fameros que aparecem em um estudo divulgado em 2025, baseados em dados consolidados de 2023.\nRealidade que s\u00f3 tende a crescer com o passar dos anos. Mais de um milh\u00e3o de empregos formais nasceram dessa cadeia movida por produ\u00e7\u00e3o intelectual. Dentro da pesquisa, no Nordeste, a cultura popular e a m\u00fasica aparecem entre os segmentos mais fortes desse mercado criativo. \nUm cen\u00e1rio que, para a Gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae Para\u00edba, Regina Amorim, fortalece, ainda, um turismo mais aut\u00eantico, conectado com a identidade cultural do nosso estado. \n\u201cInclusive, Jo\u00e3o Pessoa \u00e9 a cidade criativa da UNESCO no segmento de artesanato e arte popular, assim como Campina Grande \u00e9 cidade criativa no segmento de artes midi\u00e1ticas. Isso \u00e9 muito bom para a Para\u00edba, porque \u00e9 uma forma de intera\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses\u201d, disse. \nPromissor, mas ainda repleto de desafios: \u201cProfissionais de \u00e1reas como m\u00fasica, moda e literatura, muitas vezes, tratam a arte como uma atividade secund\u00e1ria, e n\u00e3o como uma profiss\u00e3o\u201d, analisa Regina. Realidade contradit\u00f3ria \u00e0 for\u00e7a da economia criativa, que \u00e9 considerada por especialistas, a da abund\u00e2ncia. \nEm Campina Grande, Giulliano Santos, 56 anos, comerciante, luthier e revendedor de acordeons, faz parte de toda essa cadeia produtiva gerada a partir do conhecimento. Um trabalho que ainda n\u00e3o recebe dedica\u00e7\u00e3o exclusiva por parte dele e que representa 30% da renda mensal. Mas, antes mesmo da sanfona, veio a guitarra. A experi\u00eancia como m\u00fasico profissional abriu caminhos para um trabalho minucioso, que exige precis\u00e3o quase cir\u00fargica, j\u00e1 que dentro de uma sanfona, cada pe\u00e7a interfere diretamente no som: \n\u201cEu n\u00e3o me dediquei como m\u00fasico profissional do acordeon, me dediquei mais a mexer no instrumento e trabalhar com ele, a consertar. A\u00ed os pr\u00f3prios m\u00fasicos n\u00e3o tem interesse em consertar e nos procuram\", relata.\nNo per\u00edodo junino, essa procura cresce. Situa\u00e7\u00e3o que pode refletir um faturamento sazonal para quem vive do instrumento. \u201cSim, n\u00e3o \u00e9 um servi\u00e7o que aparece todos os dias, n\u00e9? Quando chega mais perto do S\u00e3o Jo\u00e3o a procura aumenta\u2026 mas eu n\u00e3o penso muito no comercial, \u00e9 mais pelo amor ao instrumento\u201d, explica Giulliano. \nPor\u00e9m, nos \u00faltimos anos, Giulliano tem notado que essa busca deixou de vir apenas de m\u00fasicos veteranos ou artistas que j\u00e1 vivem da estrada. Muita gente tem buscado transformar o instrumento em profiss\u00e3o ainda cedo. \nAnt\u00f4nio Marques se apaixonou pela sanfona aos dez anos de idade\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\nAnt\u00f4nio Marques, de 14 anos, que \u00e9 aluno do professor Caju, j\u00e1 desponta em uma rotina de apresenta\u00e7\u00f5es remuneradas em eventos p\u00fablicos e privados, dando os primeiros passos na profissionaliza\u00e7\u00e3o do instrumento. Inclusive, uma das sanfonas usadas pelo jovem nos shows, foi presente do m\u00fasico potiguar Dorgival Dantas. \nMomentos \u00fanicos, j\u00e1 presentes no acervo de mem\u00f3rias de um adolescente que j\u00e1 entendeu que a sanfona pode abrir caminhos: \u201cEu quero ser um grande sanfoneiro e procurar s\u00f3 crescer, al\u00e9m de levar a m\u00fasica do meu Nordeste para todos os cantos\u201d, se entusiasma Ant\u00f4nio, que j\u00e1 soma mais de cem mil seguidores nas redes sociais. \n\u201cEle come\u00e7ou a tocar sanfona depois que ele voltou do programa The Voice, da Rede Globo. A gente foi passear no S\u00e3o Jo\u00e3o de Campina, e a\u00ed quem tocava no palco era Fabiano Guimar\u00e3es, que o chamou no palco pra cantar. Quando ele desceu, j\u00e1 foi logo nos pedindo pra comprar uma sanfona pra ele. Ele se apaixonou e, desde ent\u00e3o, n\u00e3o solta mais o instrumento\u201d, conta emocionada e orgulhosa Kamila Soares, m\u00e3e de Ant\u00f4nio. \nPara o jovem, enquanto houver algu\u00e9m disposto a abrir o fole e transformar paix\u00f5es em m\u00fasica, a sanfona deve continuar encontrando maneiras de sobreviver ao tempo, \u201cbem longe de desafinar, apenas se reinventando e ecoando como for\u00e7a cultural e econ\u00f4mica no Nordeste.\u201d  \nV\u00eddeos mais assistidos do g1 Para\u00edba  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>        Sanfonas<br \/>\nTV Clube<br \/>\nAos 98 anos, o compositor, m\u00fasico e poeta pernambucano, Onildo Almeida, relembra e ainda canta com carinho a m\u00fasica Hora do Adeus, eternizada por Luiz Gonzaga e escrita por Onildo, em parceria com Luiz Queiroga. 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