{"id":6175,"date":"2022-10-31T09:45:34","date_gmt":"2022-10-31T12:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/g1.globo.com\/pb\/paraiba\/noticia\/2022\/10\/31\/conheca-o-pao-de-saora-patrimonio-imaterial-da-paraiba-que-atravessa-geracoes-e-inspirou-musica.ghtml"},"modified":"2022-10-31T09:45:34","modified_gmt":"2022-10-31T12:45:34","slug":"conheca-o-pao-de-saora-patrimonio-imaterial-da-paraiba-que-atravessa-geracoes-e-inspirou-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindaopcpb.org.br\/index.php\/2022\/10\/31\/conheca-o-pao-de-saora-patrimonio-imaterial-da-paraiba-que-atravessa-geracoes-e-inspirou-musica\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a o p\u00e3o de Sa\u00f3ra: patrim\u00f4nio imaterial da Para\u00edba que atravessa gera\u00e7\u00f5es e inspirou m\u00fasica"},"content":{"rendered":"   <img src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/YtLtPBoctcByWhvfdl4J4ZIEVu8=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/w\/V\/xeUwRTRyG3sAzKRRUeMA\/photo-2022-10-28-16-32-53.jpg\" \/><br \/>   Esp\u00e9cie de p\u00e3o franc\u00eas com massa densa e livre de aditivos qu\u00edmicos foi inventada por Severino Cabral, conhecido por Sa\u00f3ra, e se popularizou em Cajazeiras, no Sert\u00e3o. Hoje, a receita atravessa gera\u00e7\u00f5es e \u00e9 produzida por uma das netas dele, em Jo\u00e3o Pessoa.  P\u00e3o de Sa\u00f3ra \u00e9 patrim\u00f4nio imaterial da Para\u00edba \nArquivo pessoal\/Jana Cabral \nQuando Severino Cabral dos Santos, mais conhecido como Sa\u00f3ra, inventou uma massa de p\u00e3o, por volta de 1947, talvez n\u00e3o imaginasse que a inven\u00e7\u00e3o atravessaria gera\u00e7\u00f5es. A receita, que \u00e9 semelhante ao p\u00e3o franc\u00eas, mas com uma massa mais densa, ficou famosa na cidade de Cajazeiras, no Sert\u00e3o do estado, foi conservada pelos filhos e netos de Seu Sa\u00f3ra e se tornou patrim\u00f4nio imaterial da Para\u00edba.  \nO criador morreu em 2004, antes de ver sua inven\u00e7\u00e3o se tornar patrim\u00f4nio imaterial, mas as gera\u00e7\u00f5es seguintes continuaram conservando e fabricando a receita. Atualmente, uma das netas de Sa\u00f3ra, Jana Cabral, divide-se entre o trabalho como t\u00e9cnica de enfermagem em Jo\u00e3o Pessoa, de segunda \u00e0 quinta-feira, e na panifica\u00e7\u00e3o da tradicional receita familiar, \u00e0s sextas-feiras. \nA fabrica\u00e7\u00e3o \u00e9 feita na casa dela, no bairro Aeroclube, na capital paraibana, onde mora com o marido, Leonardo de Souza, que ajuda na produ\u00e7\u00e3o, e com os filhos Benjamin, de 8 anos, e Arthur, de 10 anos. A mulher relata que vende cerca de 20 quilos por semana em Jo\u00e3o Pessoa, tudo feito por encomenda e entregue por delivery. \nAp\u00f3s prepara\u00e7\u00e3o, massa fica descansando antes de ir para o forno \nLuana Silva\/g1\n\u201cTem sa\u00eddo bem, gra\u00e7as a Deus. Tanto os cajazeirenses quanto os pessoenses t\u00eam procurado bastante, e em Cajazeiras \u00e9 alimento pra cidade toda\u201d. \nJana aprendeu a receita com o pai, Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia Cabral. Ele, por sua vez, aprendeu com o pai, Sa\u00f3ra, e at\u00e9 hoje toca a padaria da fam\u00edlia em Cajazeiras, no Sert\u00e3o da Para\u00edba, onde esse tipo de p\u00e3o se tornou famoso. A hist\u00f3ria do p\u00e3o une com\u00e9rcio, cultura paraibana e afeto que atravessa n\u00e3o apenas a fam\u00edlia, mas a mem\u00f3ria de uma cidade.\nJos\u00e9 de Arimat\u00e9ia Cabral, Severino Cabral Filho, que s\u00e3o filhos de Sa\u00f3ra, e Joab Cabral, filho de Arimat\u00e9ia e neto de Sa\u00f3ra\nArquivo pessoal\/Jana Cabral \nA rotina de Jana Cabral durante as sextas-feiras come\u00e7a cedo, por volta das 5h da manh\u00e3. \u201cLevanto 5h da manh\u00e3, a\u00ed vou preparar o material da massa, preparar a massa, rechear. Depois de mexer a massa, ela vai descansar. Hoje terminei esse processo umas 10h. Demora de 40 minutos a uma hora para crescer e a\u00ed eu fa\u00e7o o corte e vai para o forno\u201d. \nJana explica que o processo \u00e9 feito manualmente e n\u00e3o tem a adi\u00e7\u00e3o de nenhum tipo de conservante ou outros aditivos qu\u00edmicos. Segundo ela, at\u00e9 o fermento biol\u00f3gico \u00e9 aplicado em baix\u00edssima quantidade. \nJana Cabral aprendeu a receita com o pai, Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia que \u00e9 filho de Sa\u00f3ra \nLuana Silva\/g1 \nO trabalho como padeira s\u00f3 come\u00e7ou em 2020, durante a pandemia. Apesar de ajudar a fam\u00edlia na produ\u00e7\u00e3o desde crian\u00e7a, Jana se formou em t\u00e9cnica de enfermagem e trabalhava em dois hospitais, at\u00e9 que decidiu sair de um dos empregos para se dedicar a uma paix\u00e3o antiga. \n\u201cDesde crian\u00e7a, eu ia ajudar meu pai na padaria, abria os sacos de farinha e eu achava lindo. Sempre tive aquele desejo de trabalhar com isso guardadinho. A\u00ed me profissionalizei, sou t\u00e9cnica de enfermagem, fiz meus concursos, passei. Chegou um tempo em que eu estava trabalhando em dois hospitais, mas j\u00e1 n\u00e3o estava aguentando mais. A\u00ed fiquei s\u00f3 no HU e veio a ideia de fazer o p\u00e3o aqui\u201d. \nUm dos principais desafios que Jana enfrentou foi utilizar o forno a g\u00e1s para assar os p\u00e3es. \u00c9 que at\u00e9 hoje o pai dela utiliza forno \u00e0 lenha na produ\u00e7\u00e3o. \u201cL\u00e1 em Cajazeiras usa o forno a lenha, aqui n\u00f3s usamos o forno a g\u00e1s e foi um grande desafio descobrir a temperatura, o tempo ideal. L\u00e1 ainda usa a lenha. Se muda a composi\u00e7\u00e3o da farinha, j\u00e1 muda tudo aqui, at\u00e9 a quantidade de \u00e1gua\u201d. \nPatrim\u00f4nio imaterial \nJana Cabral com a decis\u00e3o que tornou p\u00e3o de Saora patrim\u00f4nio imaterial da Para\u00edba \nLuana Silva\/g1 \nO p\u00e3o de Sa\u00f3ra foi considerado patrim\u00f4nio imaterial da Para\u00edba pela Lei 11.916, sancionada pelo governador da Para\u00edba, Jo\u00e3o Azev\u00eado, no dia 27 de abril de 2021. O projeto \u00e9 de autoria do deputado estadual Jeov\u00e1 Campos, de 5 de mar\u00e7o de 2021. \nO projeto de lei foi aprovado na Assembleia Legislativa da Para\u00edba (ALPB), no dia 24 de mar\u00e7o de 2021, por unanimidade. Jana Cabral lembra que assistiu \u00e0 reuni\u00e3o on-line, por causa da pandemia, enquanto preparava os p\u00e3es para entrega. Na sess\u00e3o, estiveram presentes os deputados J\u00fanior Ara\u00fajo e Dra. Paula, que atuam na regi\u00e3o do Sert\u00e3o, assim como o propositor Jeov\u00e1 Campos, e, mesmo sendo de partidos e posicionamentos diferentes, convergiram na decis\u00e3o. \n\"Foi uma ben\u00e7\u00e3o. Passou por unanimidade, todo mundo votou. Neste dia da sess\u00e3o tinha tr\u00eas deputados de Cajazeiras e foi assim super bem aceito\u201d, relembrou.\nQuem foi Sa\u00f3ra \nSa\u00f3ra costumava carregar seus p\u00e3es em um balaio na cabe\u00e7a para vender nas ruas da cidade \nArquivo pessoal\/Jana Cabral\nEnquanto espera a massa descansar, Jana Cabral conta a hist\u00f3ria do av\u00f4. Severino Cabral, Sa\u00f3ra, nasceu em 1918 na cidade de Teixeira. Ap\u00f3s perder o pai, quando tinha apenas 7 anos de idade, a fam\u00edlia se mudou para Patos. Foi l\u00e1, aos 9 anos, que o futuro inventor come\u00e7ou a trabalhar com panifica\u00e7\u00e3o. Contudo, foi em Cajazeiras, para onde se mudou em 1947, que Sa\u00f3ra come\u00e7ou a se destacar como padeiro.\n\u201cCom 9 anos, ele j\u00e1 come\u00e7ou a trabalhar em padarias. Naquela \u00e9poca as crian\u00e7as trabalhavam, ele nasceu em 1918. Foi trabalhando nas padarias e se desenvolvendo. A\u00ed se casou com a primeira esposa, minha av\u00f3, m\u00e3e do meu pai e teve 5 filhos. Foi para Cajazeiras em 1947 e come\u00e7ou a produzir l\u00e1\u201d, relatou. \nAo chegar na cidade, Sa\u00f3ra passou a compartilhar com os padeiros da regi\u00e3o dicas sobre panifica\u00e7\u00e3o. \u201cEle foi ensinar aos padeiros como fazia a fermenta\u00e7\u00e3o, a trabalhar a massa. Ele levou todo um conhecimento consigo e disseminou, menos a receita do p\u00e3o dele, risos\u201d. \nUm dos filhos de Sa\u00f3ra, Severino Cabral Filho, escreveu o livro \"O P\u00e3o da Mem\u00f3ria\", publicado em 2004. Na obra, ele cita uma das falas do pai, que relatava o quanto os produtos de panifica\u00e7\u00e3o da cidade na \u00e9poca n\u00e3o tinham boa qualidade. \n\"As padarias daqui s\u00f3 sabiam fazer um tipo de p\u00e3o aguado, fino e duro que s\u00f3 cacete, n\u00e3o tinha crist\u00e3o de Deus que aguentasse comer. J\u00e1 o p\u00e3o doce era que nem chiclete, tinha uma liga medonha, e faziam tamb\u00e9m umas bolachas redondas que tamb\u00e9m n\u00e3o eram boas\u201d, contou Sa\u00f3ra. \nLei que tornou p\u00e3o de Saora patrim\u00f4nio imaterial e livro 'O P\u00e3o da Mem\u00f3ria'\ng1\/Luana Silva\nPor isso, pouco tempo depois de chegar em Cajazeiras, segundo Jana Cabral, Sa\u00f3ra conseguiu montar sua pequena padaria na periferia. \u201cEm um m\u00eas, ele j\u00e1 conseguiu montar a padaria dele, que chamava de gangorra, as padarias pequenas eram chamadas de gangorra, ali naquela rua que vai l\u00e1 para o Perpet\u00e3o, nas Capoeiras\u201d. A padaria da fam\u00edlia n\u00e3o funciona neste mesmo local, mas ainda fica nas proximidades. O pai de Jana, Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia, gerencia o neg\u00f3cio com ajuda de um dos irm\u00e3os e do filho, Joab. \nAl\u00e9m do p\u00e3o franc\u00eas de receita pr\u00f3pria, Sa\u00f3ra fabricava as bolinhas de ouro, que s\u00e3o p\u00e3es doces, com massa semelhante ao brioche, e o jacar\u00e9 de coco, um p\u00e3o doce, recheado com coco e em forma de jacar\u00e9. Jana Cabral diz que n\u00e3o faz o jacar\u00e9 de coco, mas o mant\u00e9m vivo na mem\u00f3ria.\n\u201cEle fazia jacar\u00e9 de coco tamb\u00e9m, mas eu n\u00e3o me atrevi a fazer, porque \u00e9 uma coisa muito simb\u00f3lica e deixei em um lugar guardadinho. \u00c9 um p\u00e3o de coco, recheado com coco e em formato de jacar\u00e9\u201d. \nAl\u00e9m de vender na padaria, o padeiro colocava seus produtos em um balaio, posicionava na cabe\u00e7a e sa\u00eda pelas ruas de Cajazeiras e, por vezes, at\u00e9 ia at\u00e9 a zona rural vender seus produtos. A figura simp\u00e1tica se tornou uma das mais conhecidas da hist\u00f3ria de Cajazeiras e inspirou a m\u00fasica \u201cSa\u00f3ra\u201d, do compositor Naldinho Braga, gravada originalmente pela banda Tocaia da Para\u00edba. \nOs versos s\u00e3o inspirados nas frases utilizadas por Sa\u00f3ra ao vender os p\u00e3es. \u201cL\u00e1 vem Sa\u00f3ra\/Descendo a ladeira\/ Com um balaio de p\u00e3o na cabe\u00e7a\/ T\u00e1 vendendo bolinha de ouro\/ T\u00e1 vendendo jacar\u00e9 de coco\/ Eh! Que paoz\u00e3o de arroba\/ Corre que t\u00e1 se acabando\u201d. \nO compositor Naldinho Braga diz que a inspira\u00e7\u00e3o vem da mem\u00f3ria de sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia em Cajazeiras. \u201cA letra lembra a imagem de Sa\u00f3ra vendendo, no per\u00edodo da tarde, hora do lanche. \u2018Oh que p\u00e3oz\u00e3o de arroba, corre que t\u00e1 se acabando\u2019 era um jarg\u00e3o utilizado por ele\u201d, relatou. \nJ\u00e1 na terceira idade, antes de morrer, Sa\u00f3ra ainda n\u00e3o sabia que sua arte se tornaria patrim\u00f4nio imaterial da Para\u00edba, mas havia se certificado de passar para os filhos o conhecimento, como ele disse no livro \u2018O P\u00e3o da Mem\u00f3ria\u2019, de seu filho, Severino Cabral Filho.\n\"O povo chama \u00e9 o p\u00e3o de Sa\u00f3ra, mas sabe por qu\u00ea? Porque toda vida eu tive cuidado de fazer o meu p\u00e3ozinho bem feito, e os meus filhos aprenderam foi comigo. Eu ensinei tudo o que eu sei, tudo eles aprenderam foi comigo, por isso \u00e9 que o p\u00e3o \u00e9 gostoso e o povo reconhece desde 1947, at\u00e9 hoje\", afirmou. \nSeverino Cabral (Sa\u00f3ra) inventor do p\u00e3o de Sa\u00f3ra\nArquivo pessoal\/Jana Cabral\nV\u00eddeos mais assistidos do g1 Para\u00edba  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>      Esp\u00e9cie de p\u00e3o franc\u00eas com massa densa e livre de aditivos qu\u00edmicos foi inventada por Severino Cabral, conhecido por Sa\u00f3ra, e se popularizou em Cajazeiras, no Sert\u00e3o. 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