Estudante diz que sofreu ‘processo de silenciamento’ ao denunciar professor do IFPB por suspeita de assédio sexual


Professor é alvo de investigação da PF e do MPF. Jovem encaminhou informações para a autora da denúncia., que é ex-companheira do professor. Campus do IFPB de Itabaiana Google Street View/Reprodução Um estudante afirma que sofreu assédio moral e um “processo de silenciamento” ao denunciar o professor do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) que está sendo investigado por suspeita de assediar sexualmente uma série de alunas adolescentes. Segundo o jovem, os relatos de assédio começaram antes das primeiras denúncias serem feitas em 2019, e que a cada semestre o professor escolhia uma estudante diferente para assediar. O professor, no caso, é Antônio Isaac Luna de Lacerda, que até março deste ano era o diretor-geral do campus de Itabaiana do Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Ele é alvo de investigação por parte da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) na Paraíba por assédio sexual. O IFPB também abriu um Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) neste ano, afastando-o de todas as suas funções na instituição de ensino até o término das investigações. Tudo corre em sigilo, mas o g1 teve acesso à denúncia formulada ao MPF em março deste ano. Procurado, Antônio Isaac Luna de Lacerda disse que apenas o seu advogado, César Figueiredo, falaria em nome dele. César, por sua vez, explicou que, "em virtude do processo tramitar em segredo de justiça e tratar de intimidades, a defesa vai se resguardar no direito de se manifestar apenas nos autos". E completou dizendo que, "de antemão, afirma que não houve indiciamento nem condenação". O estudante hoje tem 21 anos, mas tinha 17 quando procurou a então esposa de Isaac, Ana Paula Moreno, para informar a ela tudo o que vinha acontecendo no campus e para alertá-la das irregularidades que Isaac estaria cometendo. Ana Paula está separada de Isaac e é a autora da denúncia que tramita no MPF. Em conversa com o g1, o jovem pediu para não ser identificado. O depoimento dele, os “prints” que ele reuniu ao longo dos anos de conversas que seriam do professor com as estudantes (muitas com conteúdo sexuais), as tentativas frustradas de denunciar o caso no âmbito interno do IFPB, tudo isso serve de base da denúncia que Ana Paula formalizou. De acordo com o estudante, ele sofreu muito ao longo dos anos. Teve crise de ansiedade e chegou a questionar o seu próprio senso de moral. E tudo isso por causa de uma sistemática tentativa do professor de lhe descredibilizar frente à comunidade acadêmica. “Eu sofri um processo de silenciamento ao longo dos anos. O diretor era a autoridade máxima dentro do campus e para todas as pessoas passava a ideia de que eu era um propagador de mentiras, que eu não merecia crédito. Que eu inventava boatos apenas porque não gostava dele”, denuncia o jovem. Ele explica que só procurou Ana Paula depois de perceber que não conseguiria fazer nada no âmbito interno do IFPB. Que adicionou ela no Instagram, conseguiu o telefone dela e, depois disso, conversou demoradamente com ela por telefone, contando todos os detalhes do caso. Ambos mantêm contato regular até hoje. A percepção de um padrão O estudante explica que é (ou era) amigo de muitas das meninas que foram assediadas pelo professor. E que, por causa disso, eles estavam sempre conversando sobre tudo, sobre todas as vivências no IFPB. Não raro, as investidas de Antônio Isaac entravam na pauta. Foi esse estudante, portanto, quem primeiro teria percebido uma recorrência, um padrão no comportamento do professor com as estudantes. Todas, segundo consta na denúncia, entre 14 e 17 anos de idade. “Era uma situação recorrente, que vinha acontecendo desde 2016, e isso já estava ficando fora de controle. A cada semestre, ele mexia com uma aluna diferente”, explica. Protocolo confirma que denúncia contra professor do IFPB foi formalizada MPF/Reprodução O jovem comenta ainda que muitas começaram a apresentar desempenho escolar ruim e crise de ansiedade crescente. Algumas teriam deixado o IFPB por não suportarem a pressão. Outras, segundo ele coagidas pelo professor, se afastaram do garoto. “Eu queria que isso mudasse e comecei a juntar provas. Ele se envolvia com várias meninas do campus e sempre começava curtindo mensagens nas redes sociais, puxando papo e demonstrando interesse. Eu achei muito revoltante o que vinha acontecendo e ninguém tomava atitude”, descreve. O estudante questiona também a informação repassada na quarta-feira (6) pelo IFPB de que, em 2019, nenhum procedimento administrativo foi aberto contra o professor apenas porque nenhuma denúncia foi formalizada. O estudante, contudo, diz que ele e outros estudantes conversaram diretamente com o reitor Cícero Nicácio, pouco depois de um evento chamado de Reitoria Itinerante, ocorrida em 25 de maio daquele ano, e que já na ocasião foram apresentados vários “prints” de conversas que mostrariam o assédio sexual recorrente. E que, mesmo assim, nada foi feito. “Ele (o reitor) ficou abismado com o que estava vendo e disse que ia tomar medidas. Mas nenhuma providência foi tomada. Em nenhum momento eu fui orientado pela Reitoria de que uma denúncia formal era necessária para um caso como aquele. Ficou a palavra deles de que previdências seriam tomadas e eu acreditei”, resume. Entenda o caso O professor Antônio Isaac Luna de Lacerda é alvo de investigação pela Polícia Federal (PF) na Paraíba e pelo Ministério Público Federal (MPF) com o objetivo de analisar denúncias de que ele teria assediado e mantido relações sexuais com uma série de estudantes menores de 18 anos. Todo o caso segue em sigilo por envolver pessoas menores de 18 anos e nem a PF nem o MPF se pronunciam sobre a tramitação das investigações O MPF, no entanto, confirma que há uma investigação criminal em curso para investigar o professor, mas que só vai se manifestar quando ela for finalizada. O IFPB, por sua vez, também confirma as denúncias e explica que vem realizando um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e que enquanto esse durar Isaac Luna seguirá suspenso de suas funções. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba
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