Lucas Ribeiro: quais serão os desafios do governador da PB nos próximos quatro anos

Lucas Ribeiro (PP) faz primeiro discurso após ser reeleito como governador na Paraíba Lucas Ribeiro (PP) foi reeleito governador da Paraíba no primeiro turno das Eleições 2026, no último domingo (4), com 1.242.457 votos, o equivalente a 64,34% dos votos válidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele terá mais quatro anos à frente do governo estadual. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp O g1 ouviu o cientista político Gonzaga Júnior e o professor e doutor em Sociologia Jomário Pereira para analisar o que pode estar no centro do novo mandato e quais questões devem ser acompanhadas na gestão de Lucas Ribeiro. Entre os pontos levantados pelos especialistas estão segurança pública, atuação de organizações criminosas, investimentos, contas públicas, serviços de saúde e educação, geração de emprego e distribuição de recursos entre as regiões do estado. Equipe de governo e articulação política A formação da equipe de governo está entre os primeiros pontos que, na avaliação do cientista político Gonzaga Júnior, Lucas Ribeiro terá de definir no início do novo mandato. Segundo ele, mesmo com a permanência de uma mesma linha administrativa, o governador pode fazer mudanças nos secretariados e demais auxiliares para estabelecer sua própria marca na gestão. “O primeiro desafio de Lucas é a composição da equipe, dos seus auxiliares, que são as secretarias. Embora venha de um governo de continuidade, há uma tendência sempre nesse início de novo mandato de Lucas compor uma nova equipe para imprimir sua marca. Esse é o primeiro desafio", avalia. Na Assembleia Legislativa, Gonzaga Júnior avalia que o governador deve encontrar um cenário de apoio semelhante ao registrado na gestão anterior. Ele cita a ampliação da bancada do partido de Lucas e a presença dos Republicanos entre os maiores grupos da Casa. “Sobre sua relação política, é mais fácil para o governador Lucas, uma vez que ele já vem de uma relação de continuidade do governo João Azevêdo, que tinha maioria na bancada e, por sua vez, essa maioria se manteve. O seu partido ampliou a bancada e os partidos que elegeram poucos representantes tendem a se manter na base do governo”, diz. LEIA TAMBÉM: Lucas Ribeiro é o governador mais jovem eleito na Paraíba desde a redemocratização Lucas Ribeiro vence em 215 cidades, incluindo João Pessoa e Campina Grande Segundo o cientista político, a articulação com prefeitos e parlamentares também fará parte da implementação da agenda do governo. Já na relação com o Governo Federal, ele vê a possibilidade de cenários diferentes a depender do resultado da eleição para presidente. “A bancada federal também, na sua maioria, dá sustentação ao governador Lucas. Porém, o desafio pode estar junto ao presidente eleito, caso Flávio Bolsonaro seja eleito. Há uma tendência maior de ter dificuldade nessa relação, porque o governador Lucas apoiou diretamente o presidente Lula no primeiro turno, e no segundo turno já reforçou esse apoio”, afima Gonzaga. O sociólogo Jomário Pereira também considera importante a articulação entre os governos estadual e federal, principalmente para a continuidade de ações nas áreas sociais. Para ele, a capacidade de manter e ampliar políticas públicas estará relacionada a essa relação institucional. "Nos próximos quatro anos, o governador Lucas terá o desafio de manter a estabilidade das conquistas e ir além, como o próprio mote da campanha afirmava, o que não será fácil, a depender do presidente que será eleito. A relação entre Executivo federal e estadual é essencial para o contínuo melhoramento das ações nessas áreas estratégicas”. Segurança pública e combate facções criminosas Entre os temas analisados pelos especialistas está a segurança pública, especialmente a atuação das organizações criminosas na Paraíba. Para o cientista político Gonzaga Júnior, um dos pontos que devem ser considerados pelo próximo governo é o fortalecimento da inteligência das polícias, com ações de prevenção ao avanço das facções. “Do ponto de vista da segurança pública, a prioridade do governo, primeiro, o que todo setor de segurança fala, é investir de forma efetiva na estrutura de inteligência da polícia. A Polícia Civil e a Polícia Militar têm que trabalhar com estratégia. Essa é a forma de trabalhar com medidas preventivas para poder conter o avanço, em especial, das facções criminosas”, explica. O trabalho de investigação relacionado a organizações criminosas também resulta em processos que chegam ao Judiciário. Um levantamento da Rádio CBN Paraíba, com base em dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostra que aumentou de forma expressiva, nos últimos anos, a quantidade de processos judiciais relacionados a organizações criminosas na Paraíba. Nos novos processos, o número passou de 14, em 2020, para 129, em 2025, um crescimento de cerca de 821%. O aumento também aparece entre os processos que permaneciam pendentes na Justiça. O total passou de 32, em 2020, para 181, em 2025, alta de aproximadamente 466%. Já os julgamentos passaram de 4 para 85 no mesmo período, um crescimento de cerca de 2.025%. Para Gonzaga Júnior, porém, o enfrentamento às facções não deve ficar restrito ao trabalho policial. Ele afirma que a presença do Estado nas comunidades também é necessária para evitar que organizações criminosas ocupem espaços onde faltam serviços e políticas públicas. “À medida que o Estado fica ausente nesses territórios onde há presença das facções, esse poder paralelo ocupa os espaços deixados pela ausência do Estado. É fundamental que o Estado entre com ações efetivas de infraestrutura e de segurança pública que tenham relação mais próxima com a comunidade”, comenta. É nesse ponto que o sociólogo Jomário Pereira amplia a discussão. Para ele, a presença das organizações criminosas afeta não apenas a segurança, mas a rotina das pessoas que vivem nesses territórios, inclusive o acesso a produtos e serviços. “A segurança pública é um problema generalizado. Não é uma questão exclusiva nossa, na Paraíba. Porém, avançou de forma escancarada e, aparentemente, o Estado não tem conseguido conter esse avanço. O impacto é sentido em todo o cotidiano. Até mesmo para se locomover dentro de determinado território, é necessário ter autorização. A venda de gás, internet e outros produtos também é afetada. Até mesmo o acesso à saúde e à educação se torna um problema”, explica. Para o sociólogo, o enfrentamento às organizações criminosas precisa atingir a estrutura que sustenta esses grupos, e não apenas os integrantes que atuam diretamente nas comunidades. Ele cita o combate à lavagem de dinheiro e a prisão de pessoas que ocupam posições de comando. “Na questão da infraestrutura do crime, na lavagem de dinheiro e na prisão dos 'chefões', que não vivem nas comunidades, mas em áreas mais nobres e que, geralmente, não vivem na Paraíba, mas em outros estados. Apenas com Inteligência reforçada seremos capazes de amenizar”, afirma Jomário. Além da atuação policial, o sociólogo defende políticas públicas como parte do enfrentamento às facções. Para ele, educação, saúde, emprego, renda e lazer podem reduzir a vulnerabilidade de crianças e jovens em comunidades onde esses grupos estão presentes. “Quanto às políticas sociais, onde o Estado não chega, o crime chega e atende. Logo, dignidade, educação e saúde seriam o básico para livrar as crianças e os jovens desse meio. Mas, para além do básico, é extremamente necessário que as pessoas possam ter empregos com melhores salários, poder aquisitivo e diversão. Resumindo, não é apenas ter, é ter com qualidade de vida”. Investimentos e equilíbrio das contas públicas Outro ponto analisado pelos especialistas é a necessidade de conciliar investimentos públicos e equilíbrio das contas do estado. Para o cientista político Gonzaga Júnior, Lucas Ribeiro parte de uma situação fiscal, deixada pelo ex-governador João Azevêdo (PSB), com recursos em caixa e investimentos em andamento, mas pode encontrar um cenário nacional de maior contenção. “O segundo desafio vem do ponto de vista fiscal. Apesar de o governo João Azevêdo ter deixado um bom equilíbrio fiscal para Lucas, com investimentos importantes e recursos em caixa, a tendência que temos agora, no Brasil e no exterior, é de uma certa retração, haja vista que os resultados do segundo turno nas eleições, independentemente de quem vença, trazem sempre uma possibilidade real de retração do ponto de vista dos investimentos. São reflexos do nosso cenário internacional. Taxações, por exemplo, sobre petróleo e energias não renováveis, tudo isso é uma fonte geradora de uma situação fiscal que tende a ser revista nos estados e nos município", comenta. Segundo Gonzaga, esse cenário pode exigir do governo estadual atenção à capacidade de manter investimentos ao mesmo tempo em que preserva o equilíbrio das contas públicas. Serviços públicos e desigualdade entre as regiões da Paraíba Além da segurança e das contas públicas, os especialistas analisam a necessidade de manter ações em áreas como saúde, educação e infraestrutura. Para Gonzaga Júnior, ainda existem demandas que precisam ser atendidas no estado, por causa de um déficit histórico de investimentos no Nordeste. “Historicamente, o Nordeste sempre foi esquecido do processo de desenvolvimento do Brasil. Foi nos últimos 20 anos que o Nordeste entrou na agenda do governo federal e, consequentemente, os governos estaduais também passaram a pautar de forma mais efetiva os investimentos em educação, saúde e infraestrutura. Então, o Nordeste se transformou muito nesses últimos 20 anos, mas, dada a carência e o déficit histórico, ainda há muito por fazer”, avalia”, avalia. Entre as questões citadas pelo cientista político está a infraestrutura hídrica. Segundo ele, a necessidade de ampliar esse tipo de investimento precisa ser considerada mesmo diante da situação fiscal do estado. “A questão fiscal é importante, mas nós temos investimentos que precisam ser realizados, porque precisamos suprir determinadas demandas que são urgentes, a exemplo da questão hídrica, uma vez que a Paraíba tem quase 80% do seu território no semiárido. Então, a questão fiscal, sim, é importante, mas os investimentos nessas áreas são fundamentais para garantir uma melhor qualidade de vida à nossa população”. Por outro lado, para o sociólogo Jomário Pereira, além de definir quanto será investido, o governo precisa considerar onde esses recursos e serviços serão aplicados. Ele afirma que as necessidades da Região Metropolitana de João Pessoa e de Campina Grande são diferentes das encontradas no Sertão e no Cariri. “A descentralização de recursos é a palavra-chave, de recursos e ações governamentais. A necessidade da Região Metropolitana de João Pessoa e de Campina Grande não é a mesma do Sertão e do Cariri do estado. Logo, conhecer bem as necessidades e demandas poderia ajudar a garantir melhorias no investimento público”, alerta. Jomério defende que essa descentralização também passe pela oferta de emprego e pela criação de equipamentos públicos em outras regiões, especialmente nas áreas de segurança, saúde e educação. “Levar novos empregos para o interior, investir em novos equipamentos públicos de segurança, saúde e educação de forma regionalizada, inclusive para desafogar os grandes centros, como João Pessoa e Campina Grande. A questão é conhecer a realidade e as demandas. A regionalização e a descentralização dos serviços serão extremamente necessárias”. Quem é Lucas Ribeiro Lucas Ribeiro (PP) vota em Campina Grande, PB Reprodução/TV Paraíba Natural de João Pessoa e parte de uma família tradicional na política paraibana, Lucas Ribeiro foi criado e iniciou a trajetória na vida pública como vereador em Campina Grande durante os anos de 2017 e 2020, mas deixou a função para assumir um cargo na prefeitura da cidade como Secretário Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação. Depois disso, entre 2020 e 2022, ele assumiu a chapa para ser o vice-prefeito de Campina Grande, com Bruno Cunha Lima. Lucas Ribeiro é filho de Daniella Ribeiro, atual senadora pela Paraíba, e sobrinho de Aguinaldo Ribeiro, deputado federal na Câmara dos Deputados. O governador é bacharel em Direito pela Unifacisa, em Campina Grande, em 2013, e Mestre em Desenvolvimento Regional, em 2020, pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Em 2022, Lucas Ribeiro foi anunciado como candidato ao cargo de vice-governador do estado na chapa com o então governador e candidato à reeleição, João Azevêdo. Ambos ganharam as eleições à época com 1.221.904 votos, que correspondem a 52,51% da votação naquele ano. No ano passado, o então vice-governador foi anunciado como pré-candidato ao governo da Paraíba para as Eleições de 2026. Ele vai concorrer ao cargo como reeleição, ou seja, o período em que ele passar como governador vai contar como um primeiro mandato. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba
